(continuando...)
Quando essa revolução quadrinhal aconteceu na minha vida, eu descobri que queria escrever (entre tantas outras coisas que eu sonhava fazer, escrever era uma). Queria muito contar histórias. Aí entra uma coisa legal e engraçada sobre como surgem as idéias para se contar histórias. Eu não me lembro exatamente como surgiu a idéia de escrever o Primeiro Relato (cujo título originalmente era "Khalel", uma brincadeira com a palavra de origem árabe khalil, que significa guardião, melhor amigo, associada ao sufixo el, dos anjos). As primeiras linhas rolaram por volta de 1989, eu tava com 16 anos. Dentre as muitas paixões que eu tenho, como a maioria dos amantes da literatura fantástica, eu era doida por vampiros e lobisomens. Ficava imaginando as possibilidades de 'juntar' estes mundos num único universo totalmente integrado. Os lobos sempre foram animais que me fascinam. Acho que são meus prediletos, ao lado dos cavalos.
Eu havia percebido que em todas as histórias de vampiro, a presença dos lobos era uma regra. Eles sempre agiam como protetores do sono dos vampiros (isso é bem evidente naquele filme "The lost boys"), ou os próprios vampiros se transformavam em lobos, coisas assim. Quando eu vi Lost Boys, me deu um estalo. Por que não contar a história dos lobos que protegem os vampiros? Eu me lembro também que em algum momento eu fiquei fascinada com a palavra "alcatéia". Achava legal e ficava criando histórias sobre super-heróis lupinos, e o nome da série seria "Alcatéia" (aliás, esta minha 'coisa' com a palavra alcatéia pintou por causa de um artista chamado Alcatena). Foi então que surgiu a idéia de juntar tudo isso. Comecei a escrever Khalel (que era o nome original do guardião que hoje se chama Azael) como se estivesse escrevendo uma história em quadrinhos. Só que tinha uma coisa... eu não sabia escrever para quadrinhos! E na época eu não sabia que não sabia fazer aquilo, eu simplesmente fui fazendo. A história começou a ganhar corpo, tomar forma. Inicialmente, tinha o nome de "Alcatéia" e falava sobre um grupo de cinco lobos que eram protetores de um vampiro da Moldávia (Lucien). Não tinha muito enredo, eu nem me lembro direito da idéia original, exceto que o tal vampiro estava prestes a ser queimado e precisava salvar a esposa, que era humana. Conforme eu fui fazendo, um entre esses lobos, começou a se transformar num personagem interessante: Khalel. Bem, a gente sabe que quando voce começa a contar uma história, de um determinado ponto adiante a impressão que temos é que a própria história é que está contando sua história para voce, então, eu meio que fui perdendo o controle sobre tudo. Como eu nunca havia estudado nada sobre escrever histórias, eu meio que tive que perceber sozinha que não bastava apenas contar a história desse ou daquele personagem, mas era preciso que eles tivessem gênese! É, eu sei que parece estúpido dizer isso, é claro que personagens precisam de gênese, mas ninguém chegou e falou pra mim "Marcela, se voce vai escrever uma história, não se esqueça de que voce tem que criar todo o universo que acompanha sua história para que ela possa fazer algum sentido, hein???". Não. Eu fui fazendo no esquema dos erros e acertos. Na medida em que as cenas se desenvolviam eu precisava encontrar elementos que as tornassem plausíveis. No começo eu fazia isso meio que "on demand". Quando aparecia a necessidade, criava-se uma explicação. Depois a coisa foi apertando e chegou uma hora em que eu falei: "Ok. Está na hora de fazer isso direito!". Foi a parte mais gostosa do trabalho. Foi neste momento que eu descobri um elemento fundamental na vida de quem quer contar histórias: a pesquisa. Era simplesmente maravilhoso criar e então buscar elementos que pudessem tornar a criação realista.
Bem, depois eu continuo porque o telefone tá tocando.......



Leia este blog no seu celular