(continuando...)
Eu visito alguns blogs de amigos, outros que são indicados aqui no próprio Cães, estou sempre “fuçando” lá e cá pela internet. O mais engraçado é que conheço gente que no blog é capaz de se despir de qualquer medo, insegurança, vergonha, ou o que quer que seja, e livremente rasgar o verbo expondo emoções, impressões, sensações, sem qualquer pudor. E algumas destas pessoas são literalmente outras quando nos sentamos à mesa para uma cerveja, como que se aquele espaço virtual fosse o único realmente reservado para a honestidade frente a si mesmo e frente o resto do mundo... Certa vez, curiosa, eu perguntei “Mas você é tão quieta, no blog me parece uma pessoa diferente”, e, não para meu espanto, a resposta foi “Ali eu posso ser eu mesma. Aqui, do lado de fora, não.”
Eu sempre ouvi dizer que os namoros “via chat” eram em muitos aspectos bem mais intensos do que aqueles vividos no estilo “live action”, porque as pessoas simplesmente se sentem mais à vontade ao escrever do que ao escutar o som da própria voz a dizer os absurdos que digita sem qualquer hesitação. E para compreender (e comprovar) este fenômeno, me vi mais uma vez recorrendo a um ensaio de Edgar Allan Poe, que na verdade me ‘inspirou’ a pensar sobre este assunto ao selecionar esta mesma citação para enviá-la ao dono dos meus pensamentos (sim, senhoras e senhores, estou realmente apaixonada). Enfim, diz o gênio “(...)Assim é que redigimos gravemente sobre o papel aquilo que, por coisa alguma deste mundo, poderíamos afirmar, pessoalmente, a um amigo sem corar ou romper em gargalhadas!".
Vivemos uma era de escravidão e escravização da imagem, das aparências, dos comportamentos. Somos levados (e nos deixamos levar!) por todo o arsenal bombástico e absurdo de rótulos e arquétipos com que a mídia, em sua onipotência e onipresença, nos esmaga. Os hindus acreditam ser, esta aqui, a Khaliuga, ou “Era da Estupidez”. Difícil não concordar com isso...
O fato é que, Khaliuga ou não, sentimos hoje da mesma maneira que sentíamos antes mesmo da escrita ter sido inventada. Somos o nosso “bom dia”, somos o nosso sorriso, somos o “vai tomar no cu”. Nada mais, nada menos. Tentamos, em vão, nos esconder de nós mesmos vivendo a mentira do silêncio, mas o som é inevitável. A voz que escutamos dentro de nossa cabeça, e que nos fala em segredo, se deixa ouvir em lágrimas, em beijos e abraços, em sorrisos e cenhos franzidos; em inúmeros pedaços e folhas de papel em que revelamos os nossos segredos para no instante seguinte nos livrarmos deles rezando, silenciosamente, para que alguém os descubram perdidos no cesto de papel.
O silêncio, contudo, uma característica bastante comum às pessoas que se dizem ‘solitárias’, hoje, tornou-se público. Cada dia que passa, mais e mais viventes aderem à idéia de, por meio da Internet, compartilhar com o mundo inteiro sua solidão e o fazem de maneira apaixonada, intensa e indubitavelmente honesta (há exceções, por certo, mas estamos falando aqui dos casos verdadeiros). Parece que estamos perdendo o rosto e a forma. Mas ganhando espaço!
Não consigo deixar de pensar nisso por uma razão muito simples: eu sou o que escrevo. E não consigo ser desonesta ao fazê-lo. Eu deixaria de ser (existir). E era justamente isso que meu amigo estava questionando naquela rodada de cerveja “Por que você se expõe dessa maneira?”
Novas perguntas pipocando...
Pensei bastante sobre isso. E, como resultado, li e reli todos os posts já publicados aqui no Cães.
Realmente, eu me exponho bastante. Por quê?
Assim como a fotografia congela no tempo uma imagem, a mão de quem escreve congela no tempo um instante sentido. Assim como o fotógrafo captura na imagem fotografada um momento visual, creio que ao escrever capturemos nas palavras escolhidas um momento de consciência (talvez caiba aqui dizer que a palavra consciência aplicada neste trecho se refere à “percepção imediata da própria experiência”). Eu, em minha neurose, associo tudo à minha finitude. Pessoalmente, acho que eu escreva porque sou presunçosa. E em minha presunção, não me agrada a idéia de saber que nada do que sou ficará uma vez que eu já tenha passado. Acho que se eu fosse eterna, eu não escreveria, porque teria tempo suficiente para caminhar todo o mundo e passar, pretensa ou despretensiosamente, por todos os ouvidos. Mas não é assim que funciona. E nossa passagem é breve, um sopro.
(continua abaixo....)