O lobo se aproximou. O tecido daquele embrulho entre os dentes da fera estava manchado de vermelho. O que quer que fosse, parecia embebido em sangue fresco. Ataliba tomou da boca do lobo o embrulho e o colocou sobre a mesa. Os Patronos ergueram-se para olhar. Ele, então, gentilmente, desenrolou o objeto, expondo-o: um açoite com ganchos de ferro em suas extremidades e pequenas pontas de lâmina ao longo da chibata. Ainda estava sujo pela tortura. Seiva e carne.
Edom virou-se de costas, caiu de joelhos e vomitou.
– Por Deus... Este açoite... O romano... Por que trouxeste isto aqui, Ataliba? Leva isso daqui! – disse entre espasmos.
– Um entre nós ajudou o delator. – respondeu Ataliba. – Um entre nós é responsável por isso! – disse, apontando para o chicote.
– Do que estás falando, homem?! – perguntou Saul, impacientemente.
– Deste crime!
Saul fez menção de dizer alguma coisa, mas desistiu. Chacoalhou a cabeça de maneira atormentada e começou a caminhar pela sala, angustiado.
– Espera um pouco, Ataliba, uma coisa de cada vez... Primeiro tu afirmas que Caim está morto e agora estás a falar sobre a morte do Prometido. Não consigo compreender...
– ...A relação? – completou Ataliba. – Caim foi salvo pela mensagem do Prometido... O perdão concedido a todos os homens... A expurgação de todos os pecados. Por isso morreu. Deixou-se morrer. A morte do Prometido era necessária para que se cumprisse a Palavra. Yeshua redimiu o pecado de todos os homens, entre eles Caim, que foi perdoado pelo assassínio de seu irmão. – então pendeu o corpo na direção de Saul, olhando-o bem dentro dos olhos. – Mas para que Caim pudesse gozar desse perdão, um entre nós houve que articular contra o Prometido! E nós sempre soubemos que Yeshua era realmente o Prometido... Está em nossas mãos o sangue daquele que nos libertou! Um sangue que se não fosse derramado jamais nos expurgaria de nossas faltas e pecados... Tu compreendes o que isso significa?
– Significa que devemos permanecer em nosso caminho, Ataliba. – disse Omar de maneira assustadoramente tranqüila. – Se o delator foi persuadido por um de nós, então é porque era para ser assim. Mesmo que não saibamos quem o persuadiu.
– Omar... Tu não entendes? Nós fomos perdoados! Culpados ou não, Yeshua levou consigo nossa culpa, até mesmo nossa culpa por sua própria morte! Está em nossas mãos a chance de acabar essa guerra, encerrar esta história insana, galgada em nada além do orgulho e da inveja! Caim foi perdoado. Estamos livres do pacto. Livres dessa maldição...
Omar se ergueu, lançando um olhar reprovador aos companheiros.
– Maldição? – perguntou. – Que maldição? Esqueces-te de que tomamos parte neste pacto de livre vontade? Caim não nos forçou a nada! Tampouco Lúcifer! Escolhemos este caminho! Não fomos levados a ele! Fizemos um juramento! Um voto de sangue! Se Caim quisesse desfazer o pacto, teria declarado sua vontade antes de morrer, mas ele nada declarou! Morreu em segredo! Em segredo! Morreu às nossas costas!
– Atenta para tuas palavras, Omar! Atenta! Não blasfemes contra o fundador de nossa ordem! Lúcifer convenceu Caim a se juntar a ele porque desejava vingança contra o homem tanto quanto Caim desejava vingança contra o Senhor! A inveja os condenou, a ambos! Mas Caim finalmente compreendeu a mensagem trazida pelo Prometido. Perdão, Omar! Perdão! Essa era a mensagem! Ele pode ter morrido em silêncio, mas sua morte em si foi o recado que ele nos deixou!
– O que estás sugerindo, Ataliba? – perguntou Saul. – Que desfaçamos o pacto? Que convoquemos Lúcifer e digamos a ele que a Ordem de Caim está extinta, agora que Caim morreu? Achas que o anjo vai simplesmente concordar e nos deixar viver em paz? E o que faremos depois? Omar pode não estar certo, mas também não podemos afirmar que esteja errado! Sequer temos certeza de que Caim morreu porque “se deixou morrer”, como tu o afirmas! Onde está seu corpo? Quem anunciou sua morte?
– Seth... Seth anunciou sua morte, Edom. E eu mesma o conduzi até o “outro lado”...