OS CÃES DO INFERNO


23/03/2005


Nossa... Faz tanto tempo que não apareço por aqui! É que, caríssimos, tenho dividido meu já escasso tempo entre tantos compromissos! A palavra “prazo” parece que virou meu nome do meio! Enfim...

 

Eu havia prometido divulgar um capítulo do “Mensageiro de Ararat” (a continuação do “Primeiro Relato...”) e como sou uma pessoa de palavra, lá vai... Espero que isso deixe vocês com a mão coçando pra ler tanto quanto deixou a minha própria coçando ao escrever...

 

Este texto encontra-se disponível aos freqüentadores do Orkut em minha comunidade “Azaélicos”, dedicada a vocês, meus queridos amigos.

 

Um beijo e....

Escrito por Marcela Godoy às 14h58
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O MENSAGEIRO DE ARARAT

 

Mehmed II, sultão responsável pela queda de Constantinopla, fato que trouxe ao fim o Império Bizantino no ano de 1453, avançava pela Europa como uma onda incontida, dominando, subjugando e matando todos os que se colocavam no caminho da soberania do Império Otomano.

 

Os governantes europeus tentavam de todas as maneiras vencer as forças otomanas ou pelo menos firmar tratados que pudessem preservar sua independência.

 

Para além das fronteiras húngaras, nos principados da Transilvânia, Valáquia e Moldávia, formou-se uma aliança entre os voivodes [príncipes] locais cujo objetivo era impedir o avanço das tropas otomanas a qualquer preço.

 

Mathias Corvino, Rei da Hungria e suserano de toda aquela região, investia quantias exorbitantes na contratação de mercenários que supostamente deveriam auxiliar os príncipes na defesa de seus territórios. Mensagens interceptadas de espiões turcos revelaram que o exército otomano preparava mais uma campanha no Rio Danúbio. Seu alvo: a Moldávia. Embora soubesse das intenções de Mehmed II, o Rei não enviou qualquer reforço.

 

Em 10 de janeiro de 1475, as tropas de Mehmed II invadiram Vaslui.

Mesmo desacostumados ao frio constante daquela região, a máquina perfeita montada pelo sultão avançou implacável contra os exércitos do voivod. O embate lavou de sangue a terra a ponto de quase fazê-la chorar, e os turcos não pararam até que tivessem certeza de que a batalha estava ganha.

 

O voivod, contudo, reagrupou suas forças enquanto Mehmed e seu exército exausto ainda comemoravam a vitória. A cavalaria atacou pelos flancos. Os turcos, cansados e famintos, sequer entenderam de onde viera o flagelo...

 

Naquele dia, cento e vinte mil homens tombaram sob a espada do voivod da Moldávia, Stephan Cel Mare – Estevão, o Grande.

 

Ao final da batalha, Estevão ordenou que os corpos fossem empilhados em pirâmides ao longo de toda extensão do campo e que os soldados capturados fossem empalados indiscriminadamente.

 

Para a história conhecida, aquele dia fora mais um marco na era sanguinária que as invasões otomanas haviam inaugurado.

 

Mas Estevão sabia haver uma história que transcendia aquela conhecida. E sabia que seu nome seria louvado por esta história.

A história dos Patronos da Ordem de Caim e dos Guardiões do Mito do Homem.

 

A história que vamos contar...

Escrito por Marcela Godoy às 14h55
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Ávila, manhã de 17 de setembro de 1498.

 

A intensa tempestade da noite anterior se havia ido. A luz do sol, que há pouco consistia de tímidos fachos penetrando por entre as frestas das copas das árvores, agora ganhava força e intensidade. Era quase outono em Ávila.

 

Chantal estava curvada sobre o próprio ventre. Segurava firme a carta entre seus dedos, como se fosse o maior de todos os tesouros: o papel manchado pelo sangue daqueles a quem aprendeu a amar e que agora se haviam ido para sempre, levando consigo qualquer esperança de redenção para este mundo condenado. A prova de um amor que jamais se consumou, e que custou a vida de inocentes.

 

Nada seria capaz de lhe aliviar o pranto.

 

Sentiu sobre seu ombro o repousar daquela mão que há tanto não lhe procurava. Olhou para trás, para o alto.

– Chantal, o que houve aqui? Onde está Lucien?! – perguntou o senhor postado às suas costas, oferecendo a mão para que ela se erguesse.

– Morto ... Lucien está morto, Ataliba. – ela disse entre soluços, estendendo-lhe a carta e olhando fixamente para o lobo branco colocado à direta do velho.

 

Ataliba sentou-se na grama ao lado de Chantal e tomou a carta nas mãos, lendo-a cuidadosamente. À medida que avançava, seus olhos se encharcavam. Vertiam não apenas a tristeza das palavras contidas naquele relato sincero e apaixonado, mas também a tristeza pelo terrível equívoco que resultara naquela tragédia. Embora não tivesse qualquer culpa sobre o acontecido, sentia-se parcialmente responsável por aquela desventura apenas pelo fato de nada ter podido fazer para evitar o desfecho catastrófico de uma história que poderia ser lembrada pelas gerações vindouras como um conto sobre amores que transcendem fronteiras instransponíveis. Um conto sobre esperança.

 

O destino, contudo, decidiu algo diferente, e Ataliba sentia como se todo o mundo houvesse desmoronado. Perdera o chão. O norte. Sequer sabia o que dizer...

– Lucien morreu sem saber... – falou-lhe Chantal. – E matou a esposa antes que ela pudesse dizer qualquer coisa... Antes que pudesse falar em defesa própria... que jamais o havia traído. Que o guardião jamais tocara seu corpo ou seu coração... Ele a matou, Ataliba... – ela disse olhando para as próprias mãos. – E morreu em meus braços, pouco depois... Morreu em meus braços, Ataliba... em meus braços...

Escrito por Marcela Godoy às 14h54
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Ataliba olhou para o alto. Buscava no firmamento uma resposta que ele sabia que não lhe chegaria. Sentiu o coração apertar. O peito se comprimir. A dor era quase insuportável.

– Esta carta... Então foi isso o que aconteceu...  – o velho murmurava para si mesmo, tentando encontrar sentido nas próprias palavras, tentando reconstruir ali, naquele instante, os últimos vinte e sete anos da vida de seu protegido.

 

Chantal voltou-se para o velho.

Ergueu o indicador, olhos alagados e arregalados a mirar Ataliba de perto, quase colando seu rosto no dele. 

– Eu o vi, Ataliba... A besta transformada em homem! Não mais um demônio! Não mais um lobo! – disse, apontando para a fera branca postada ao lado do velho. – E ele falou como um homem. Chorou como um homem. Caiu de joelhos e pediu perdão a Deus! A Deus! Como um homem! E Lucien?... – ela abraçou o próprio peito. – Lucien morreu em meus braços como um demônio... Queimou sob a luz do sol, Ataliba... Um homem transformado em fera! A fera que seu guardião costumava ser! – ela ergueu as mãos olhando para o sangue entre seus dedos.

– E eu vi amor nos olhos daquele guardião, daquele demônio! – disse comovida. – E o ódio que vi nos olhos de Lucien? – olhou para Ataliba. – Não era humano! Era como se eles houvessem trocado de lugar... Ele morreu nos meus braços, Ataliba, nos meus braços... Sem saber. Sem saber o quanto Miriam o amava. E sem saber que o guardião jamais o traiu, que jamais tocou sua esposa...

 

Passou as mãos pelo rosto, tentando em vão enxugar as lágrimas.

– Que mundo é esse em que homens e demônios se confundem? – perguntou entre soluços. – Que mundo é esse em que não sabemos quem somos ou no que podemos nos tornar... Que mundo é esse, Ataliba, em que somos incapazes de dizer a quem o bem pertence?... Que mundo é esse?...

Escrito por Marcela Godoy às 14h53
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I

 

33 AD.

Um mil quatrocentos e sessenta e cinco anos antes...

 

As labaredas balançavam sob o som frenético dos gritos do anjo enfurecido. Sua angústia era como lava revolvida, um fogo vivo a consumir sua alma sem alma, o prelúdio de uma era geológica que se formava dentro de seu já coração morto. O lobo negro adentrou altivo o salão e curvou-se diante do corpo esparramado daquele arauto de outrora. O arauto mais querido. Lúcifer.

 

O anjo esbravejava, jogado no chão de mármore branco. De joelhos. Asas abertas. Gigantescas. Assustadoramente gigantescas. Cobria o rosto transfigurado, tentando em vão conter as lágrimas que o castigavam como um açoite. Urrava. Sua voz era intensa como a voz das tempestades. Cada grito seu provocava ondas de choque que se propagavam do alto daquele platô e desciam pelas paredes da montanha até o mar morto lá embaixo, gerando ondas gigantescas, que quebravam violentamente contra a falésia. As colunas, que se estendiam até o infinito como se fossem os alicerces do firmamento, tremiam de tal maneira que a impressão era de que o céu, negro e sem estrelas, iria despencar. O lobo lançou um rápido olhar para o alto, voltando em seguida seus olhos para o anjo, cujo corpo, agora escorado em uma das colunas, vertia um brilho de fulgir intenso e incandescente tal qual o brilho da estrela da manhã. A lua cintilava no céu de maneira estranhamente intensa, austera. Uma luz que penetrava a escuridão daquele abismo como um ingrato visitante a contemplar do alto aquele cenário de rancor e animosidade. Um inferno. O Inferno...

Escrito por Marcela Godoy às 14h53
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– Diga-me que não vou ter que olhar para tua cara pelo resto da eternidade, Seth... – disse o anjo, enxugando as lágrimas. – Diga-me que não vou ter que olhar para tua cara até que o tempo se consuma, até que minha voz seja calada para todo o sempre nos corações dos homens... Porque, olhar para tua cara, lobo, será me lembrar todos os dias desta derrota...

 

A voz do anjo estava imbuída de uma tristeza que o lobo desconhecia. Apenas baixou a cabeça, respondendo-lhe em pensamento “Meu Príncipe”.

O anjo se ergueu.

– Teu regresso, Seth, é por mim recebido com escárnio. – e o encarou. – Tua presença aqui é ingrata. A memória viva de um novo dia... Um dia que eu não anunciei. Um dia que não pertence ao meu tempo.

“Não posso mudar o que está feito, Lúcifer.”, respondeu-lhe Seth.

– Mas até que ponto estiveste envolvido na mudança, Guardião do Mito? Até que ponto estendeste a tua mão em auxílio a todos aqueles que me traíram?

 

Lúcifer suspirou profundamente e recolheu suas asas. Num instante, o ar, embora pesado e denso, pareceu fluir outra vez. O calor de momentos atrás se dissipava aos poucos, mas o cheiro de enxofre ainda era nauseante. 

“Estou aqui, não estou?”, respondeu-lhe o lobo. “Meu regresso é a prova de minha fidelidade ao pacto e à tua vontade. Faz de mim o que bem entenderes, Lúcifer. Coloco em tuas mãos a minha sorte.”

O arcanjo passou as mãos pelo rosto.

– Há muito mais em minhas mãos do que apenas tua sorte, Seth. – disse-lhe, dando as costas, caminhando em direção ao precipício. Olhou para o mar agitado lá embaixo. E então para a lua. E para além dela. – Muito mais... – disse para si mesmo.

Seth adiantou-se um passo.

“Eu não sabia que os anjos choravam...”, disse, tentando se aproximar.

– Cala-te, Guardião do Mito. – interrompeu Lúcifer, erguendo a mão esquerda sem se voltar para o lobo, que lhe falava às costas. – Não dês mais um passo sequer. Não ousa falar das minhas lágrimas porque nem toda a Humanidade que te habita a alma seria capaz de compreendê-las, lobo... – e se voltou para ele com os olhos inflamados como duas candeias. – O som de tua voz me insulta, Seth. Cala-te.

 

O lobo negro recuou e então voltou seus olhos para o céu.

E num instante era como se a noite os estivesse deixando. A lua se apagava aos poucos ao mesmo tempo em que um estranho sol, como aquele mesmo sol que Seth contemplara tantas e tantas vezes na terra, despontava no horizonte, sobre a lua, surgindo por trás daquele mar de águas revoltosas que, agora calmas, pareciam receber a luz intensa com um acalanto. A noite eterna foi dando lugar a um dia como nenhum outro e uma sinfonia alaranjada os envolveu como os braços da mãe ao embalar o filho...

“O dia... Aqui... No Inferno...”, disse o lobo para si mesmo.

– Um dia que eu não anunciei. Um dia que não pertence ao meu tempo. Eu sou a Estrela da Manhã e eu não anunciei este dia...

“Como é possív...?”

– O som da tua voz, Seth... Insulta-me. Cala-te... CALA-TE!!!!!!!!!!!!!! – esbravejou Lúcifer com tamanha força que o chão tremeu.

Escrito por Marcela Godoy às 14h53
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II

 

Jerusalém. 33 AD.

 

Enquanto caminhava apressadamente em direção à porta de entrada da propriedade do Patrono, Omar lançou um último olhar para a noite que se abatera sobre todos, em pleno dia. Há muito não via um fenômeno como aquele. O disco lunar cobria o sol por completo, trazendo meia-noite ao meio-dia. Pensou sobre a coincidência. O suspiro que presenciou há pouco no Golgota, e então vento. Chuva. Tempestade.

E noite.

 

Adentrou o salão principal acompanhado de Yôneda, seu lobo-guardião, e se adiantou aflito na direção dos outros Patronos. A reunião, convocada de última hora, fora marcada na casa de Ataliba, um dos primeiros Patronos da antiga Ordem de Caim. Saul e Edom já aguardavam ansiosos, dado que Ataliba não mencionara a razão pela qual eles foram convocados. Omar cumprimentou seus companheiros, enquanto Yôneda caminhou em direção aos outros Guardiões do Mito ali presentes, Kai, Aspher e Trako, lobos albinos de tamanho incomum e exagerado, olhos vermelhos e pêlo robusto. Kai, o lobo guardião de Ataliba, trazia entre os dentes alguma coisa embrulhada num pedaço de linho bege.

– Onde estão os outros? Por que somos apenas nós quatro? – perguntou Omar. – Caim deveria...

Ataliba ergueu a mão direita.

– Os outros terão de esperar. Sê bem-vindo, Omar. Sei que tua viagem foi longa e cansativa.

– Por favor, Ataliba, diz logo a que viemos. Não é prudente deixar Caim esperando. Tu bem sab...

– Caim está morto.

Silêncio. Os Patronos se entreolharam.

– O que disseste? – perguntou Omar, tentando certificar-se de que seus ouvidos não o enganavam.

– Caim está morto, Omar.

– Morto? – Saul repetiu incrédulo. – Como pode ter morrido? Como pode estar morto “aquele a quem o Senhor marcou e que não pode ser ferido de morte”?

– Kai! – gritou Ataliba, chamando por seu guardião.

Escrito por Marcela Godoy às 14h52
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O lobo se aproximou. O tecido daquele embrulho entre os dentes da fera estava manchado de vermelho. O que quer que fosse, parecia embebido em sangue fresco. Ataliba tomou da boca do lobo o embrulho e o colocou sobre a mesa. Os Patronos ergueram-se para olhar. Ele, então, gentilmente, desenrolou o objeto, expondo-o: um açoite com ganchos de ferro em suas extremidades e pequenas pontas de lâmina ao longo da chibata. Ainda estava sujo pela tortura. Seiva e carne.

Edom virou-se de costas, caiu de joelhos e vomitou.

– Por Deus... Este açoite... O romano... Por que trouxeste isto aqui, Ataliba? Leva isso daqui! – disse entre espasmos.

– Um entre nós ajudou o delator. – respondeu Ataliba. – Um entre nós é responsável por isso! – disse, apontando para o chicote. 

– Do que estás falando, homem?! – perguntou Saul, impacientemente.

– Deste crime!

Saul fez menção de dizer alguma coisa, mas desistiu. Chacoalhou a cabeça de maneira atormentada e começou a caminhar pela sala, angustiado.

– Espera um pouco, Ataliba, uma coisa de cada vez... Primeiro tu afirmas que Caim está morto e agora estás a falar sobre a morte do Prometido. Não consigo compreender...

– ...A relação? – completou Ataliba. – Caim foi salvo pela mensagem do Prometido... O perdão concedido a todos os homens... A expurgação de todos os pecados. Por isso morreu. Deixou-se morrer. A morte do Prometido era necessária para que se cumprisse a Palavra. Yeshua redimiu o pecado de todos os homens, entre eles Caim, que foi perdoado pelo assassínio de seu irmão. –  então pendeu o corpo na direção de Saul, olhando-o bem dentro dos olhos. – Mas para que Caim pudesse gozar desse perdão, um entre nós houve que articular contra o Prometido! E nós sempre soubemos que Yeshua era realmente o Prometido... Está em nossas mãos o sangue daquele que nos libertou! Um sangue que se não fosse derramado jamais nos expurgaria de nossas faltas e pecados... Tu compreendes o que isso significa?

– Significa que devemos permanecer em nosso caminho, Ataliba. – disse Omar de maneira assustadoramente tranqüila. – Se o delator foi persuadido por um de nós, então é porque era para ser assim. Mesmo que não saibamos quem o persuadiu.

– Omar... Tu não entendes? Nós fomos perdoados! Culpados ou não, Yeshua levou consigo nossa culpa, até mesmo nossa culpa por sua própria morte! Está em nossas mãos a chance de acabar essa guerra, encerrar esta história insana, galgada em nada além do orgulho e da inveja! Caim foi perdoado. Estamos livres do pacto. Livres dessa maldição...

Omar se ergueu, lançando um olhar reprovador aos companheiros.

– Maldição? – perguntou. – Que maldição? Esqueces-te de que tomamos parte neste pacto de livre vontade? Caim não nos forçou a nada! Tampouco Lúcifer! Escolhemos este caminho! Não fomos levados a ele! Fizemos um juramento! Um voto de sangue! Se Caim quisesse desfazer o pacto, teria declarado sua vontade antes de morrer, mas ele nada declarou! Morreu em segredo! Em segredo! Morreu às nossas costas!

– Atenta para tuas palavras, Omar! Atenta! Não blasfemes contra o fundador de nossa ordem! Lúcifer convenceu Caim a se juntar a ele porque desejava vingança contra o homem tanto quanto Caim desejava vingança contra o Senhor! A inveja os condenou, a ambos! Mas Caim finalmente compreendeu a mensagem trazida pelo Prometido. Perdão, Omar! Perdão! Essa era a mensagem! Ele pode ter morrido em silêncio, mas sua morte em si foi o recado que ele nos deixou!

– O que estás sugerindo, Ataliba? – perguntou Saul. – Que desfaçamos o pacto? Que convoquemos Lúcifer e digamos a ele que a Ordem de Caim está extinta, agora que Caim morreu? Achas que o anjo vai simplesmente concordar e nos deixar viver em paz? E o que faremos depois? Omar pode não estar certo, mas também não podemos afirmar que esteja errado! Sequer temos certeza de que Caim morreu porque “se deixou morrer”, como tu o afirmas! Onde está seu corpo? Quem anunciou sua morte?

 

Seth... Seth anunciou sua morte, Edom. E eu mesma o conduzi até o “outro lado”...

Escrito por Marcela Godoy às 14h52
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A voz adentrou a sala violenta como o vento que anuncia a tempestade. As portas e janelas sacudiram. Uma densa névoa tomou lugar e um perfume adocicado preencheu todo o salão. Os guardiões se curvaram diante da dama a quem os Patronos da Ordem de Caim, homens eternos, jamais viram, mas reconheceram tão logo deitaram os olhos sobre ela.

 

Morte. A Senhora das Almas.

 

Todos se prostraram diante dela, cabisbaixos.

Morte caminhou entre eles e então se sentou à cabeceira da mesa.

– Muito há para ser dito. – falou a dama com a voz sublime da eternidade. – A sorte desta Ordem está em vossas mãos. Venho porque a dúvida sobre o desencarne de Caim não deve pairar sobre esta mesa. E vos asseguro, Senhores, Caim descansou de fato. Descansou enfim.

Ataliba passou a língua pelos lábios secos e suspirou.

– Morte. Honra-nos com tua presença em nossa casa.

Morte sorriu e baixou a cabeça em agradecimento.

– É um grande paradoxo, não é? – falou ela em seguida. – A morte do Prometido em vossas mãos, por meio de um traidor... E a vossa salvação como resultado desta traição. Mesmo a Vontade Superior pode gozar de ironia...

– Agradecemos, Morte, por tua preocupação em nos trazer a notícia oficial acerca do desencarne de Caim, mas não creio que tenhas cruzado a densa névoa do limbo que nos separa os mundos somente para este fim... – retrucou Omar, com uma ponta de irritação, em vista do comentário da Senhora.

– O sol nasceu no entremundos, Senhores. – respondeu a dama gentilmente. – O sol nasceu no Abismo. A noite deste mundo é o dia presente em todas as outras esferas. Tudo há que se refazer. Este é o prelúdio de um tempo que desconhecemos, e a sorte desta Ordem é fundamental para a manutenção do equilíbrio deste novo tempo. Para que vossos filhos não tenham que expiar por vossos pecados...

– Então a senhora concorda com Ataliba? Acha que devemos extinguir a Ordem? Simplesmente encerrar toda uma era de poder e dominação só porque o sol nasceu no Inferno! – respondeu Omar.

– Concordar? Eu? – disse Morte com um discreto sorriso. – Ora, Omar, tu sabes que não me cabe opinião neste mérito. Sou mensageira, não juíza... E, como mensageira, coube-me a tarefa de trazer a vós a boa nova acerca do tempo que ora se apresenta. A decisão é vossa apenas. Vossa.

 

Escrito por Marcela Godoy às 14h52
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Ataliba se levantou. Caminhava em círculos. Olhava para a escuridão lá fora, através da janela, e então para o açoite sobre a mesa.

Omar tomou a palavra.

– Devemos reunir todos os Patronos e descobrir o responsável pela traição. – disse.

– E para quê, Omar? Para quê? – perguntou Ataliba. – Não faz a menor diferença sabermos quem traiu ou não traiu a Ordem! Fomos perdoados, não fomos? O perdão perderia o propósito se nos deixássemos levar mais uma vez pela vingança!

– Eu não sei o que pensar... – disse Edom.

– Caim assistiu ao batismo de Yeshua. – Saul falou. – Naquela mesma tarde deu-nos ordens expressas de jamais tocá-lo. Sabia de quem se tratava! O delator não é um de nós, Ataliba! Foi persuadido por um de nós a trair o Prometido!

– Em troca de vida eterna! – esbravejou Ataliba. – O delator jamais compreendeu a mensagem! Jamais entendeu que o Prometido falava da eternidade do espírito e não da eternidade da carne... E quando viu que a vida eterna que o Prometido anunciava não era aquela que ele desejava, veio a nós porque sabia que em nossas veias corria a seiva de Caim... Incrédulo! E um de nós deu a ele esta seiva! Um de nós transformou sua carne! E pediu em troca que ele entregasse aos rabinos o Filho do Homem... Pelo Criador! Vê a noite lá fora! Deus está de luto!

– Não por nossa causa! – gritou Omar. – Tu estás questionando nossa continuidade por causa de um crime que não cometemos! Caim está morto, pois bem, continuemos sem ele! Eu não estou disposto a mudar a história e não creio que os outros Patronos o estejam! Essa discussão é incabível! Estamos a portas fechadas decidindo sobre o futuro de uma Ordem milenar que há muito já está além do próprio Caim, vivo ou morto! E se houvéssemos que repensar nossa continuidade a cada vez que um novo profeta aparecesse, então há muito já não existiríamos! Yeshua foi um avatar, mas não é o único e nem será o único!

– Caim decidiu aceitá-lo em seu coração e segui-lo, Omar! – contrapôs Ataliba, emocionado. – Proibiu-nos de tocá-lo e no final gozou do direito inato a que todos os homens gozam: o livre-arbítrio! Será que isso não tem um propósito, um significado? Não é um sinal de que devemos mudar? Acatar a decisão de Caim e segui-lo também?

– Decisão? DECISÃO?!!! – esbravejou Omar, batendo violentamente contra a mesa. – Caim deixou-nos de fora de sua decisão e só não amaldiçôo o seu nome porque não sei em que circunstâncias se deu a sua morte!

– Ele escolheu morrer!

– Não! Não existe escolha! Não existe livre-arbítrio entre nós, Ataliba! Nunca existiu! – Omar berrava. Saul, Edom e Morte os observavam em silêncio. – O que existe entre nós é um pacto! Um pacto firmado entre Caim, Lúcifer e Seth. Nada mais! Não podemos simplesmente escolher entre este e aquele caminho! Não com todo o poder que gozamos! Não depois de tudo o que fizemos para estar onde estamos hoje! Nosso nome é tão eterno quanto nossa carne! Escrito desde tempos imemoriais entre reis, faraós e imperadores! Estamos muito além do livre-arbítrio! Eu digo que encontremos o traidor e o punamos! Que ele sirva de exemplo a todos os que ousarem nos contradizer!

– Caim não desejaria isso...

– Caim não está aqui! E, se queres saber a verdade, se ele realmente escolheu morrer, como tu o afirmas, então Caim não merece o meu respeito! E só não apago seu nome de minha vida porque eu não estaria aqui, agora, se não fosse pelo sangue que compartilhei com ele! Todos abraçamos a causa, e agora tu pedes que voltemos nossas costas a tudo pelo que lutamos! Não! Eu me recuso! O pacto permanece!

 

Saul se levantou.

– Convoquemos Lúcifer, então. E o lobo, Seth. Assim como nós e o anjo, os Guardiões do Mito devem tomar parte desta discussão. Não podemos decidir por todos... – e dirigiu-se à dama. – Morte, podes não ser juíza, mas tuas palavras são sempre imbuídas de sensatez, livres da emoção. Empresta-nos tua prudência, eu te peço... O que tens a dizer sobre isso?

A dama sorriu.

– Eu sou a morte, Saul. – respondeu. – E tu perguntas à Morte sobre o significado da sobrevivência, da continuidade?

 

Continua...

 

(... em Junho/2005)

Escrito por Marcela Godoy às 14h52
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