CONFISSÕES - ALGUÉM ME DÊ TRABALHO REMUNERADO, POR FAVOR!
Bom, só o que me resta agora é pedir socorro.
Estou no limite de minhas forças banais. Atingi o fundo da fossa e a merda cobriu-me de tal maneira que o buraco da boca e aquele do cu, se podem dizer quase os mesmos. Por que? Tudo culpa da TV a cabo. Ou da sua falta. Sou uma escritora publicada. Iniciante, ou não, não vem ao caso, o fato é que quase já posso morrer em paz, dado que plantei um pé de feijão quando ainda no primário (que só não foi para frente porque arrendaram o terreno da antiga escola para a construção de um arranha-céu) e fazer um filho já não é mais um sonho graças à figura masculina e viril que hoje divide comigo o teto, a cama e o toddynho. Desta feita, dir-se-ia que o vivente que vos fala detém ainda o mínimo de chance de vencer na vida. Ledo engano. A tragédia desta cidadã de classe média - trabalhadora dedicada - é ver suas noites de terças e quintas-feiras entretidas com o psico-drama dos pequenos burgueses de "O Aprendiz 2". Sim, senhoras e senhores, esta é minha confissão; esta é a prova de minha decadência. Meu vocábulário agora conta com expressões tais como "feedback", "pró-atividade" e "resultado positivo". Fui consumida pela máquina da futilidade e assisto ao programa com as fichas na mão, apostando em meu cassino mental nesta ou naquela demissão, e - vergonhosamente - me vejo opinando acerca do desempenho deste ou daquele candidato.
Não me admira que meus últimos escritos estejam tão imbuídos de uma tristeza profunda - duas vezes por semana eu assassino, dolosamente, algumas de minhas células cerebrais e aquelas que ainda pulsam, urgem pelo suicídio, tamanha desilusão e desesperança que sentem frente a este comportamento muito homo e nada sapiens da vivente que se intitula senhora desta massa encefálica vitimada.
Tudo porque a queda de receita não me permite mais gozar do entretenimento despretensioso de "Everybody loves Raymond", das risadas geniais de "Whose line is it anyway?", as sequências de ação de "Third Watch", ou mesmo a tensão de "ER". Não. Não mais, senhoras e senhores. Agora só posso lamentar e ouvir do corredor às risadas da vizinhança, sem saber se riem por motivos de canal aberto ou de TV a cabo - uma dúvida que, sem dúvida, irá me atormentar até que eu tenha de volta às mãos as rédeas de minha vida financeira.
Emburreço um pouco mais a cada dia. Estou ficando apática diante da estante de livros e afoita quando me detenho no controle remoto. Eu via menos televisão quando sabia que os canais a cabo estavam ali, ao meu alcance. Agora que não os tenho mais, ligar a TV tornou-se um frenesi, um exercício de loucura e ansiedade. É só eu saber que não tem nada pra se ver, que fico ensandecida buscando, em vão - é claro, o que assistir. Meu dedos coçam, minhas mãos formigam, o controle alternando entre a direita e a esquerda, como se fosse necessário a ambas a experiência da viagem ao deserto do frívolo, chocho e inane (optei pelo verbete 'inane' por ser pouco utilizado e também porque, como se pretende que este espaço seja, pelo menos parcialmente, um espaço de recuperação de saúde intelecutal, daria um toque um pouco menos 'inane' a este assunto já 'inane' em sua mais exaustiva conformação). É a Lei da Escassez ditando as regras de meu comportamento como se eu fosse exatamente o ratinho de laboratório que sou. Rebs, conto com sua misericórdia...
Adoraria viver somente do que teço, mas o que teço ainda não tem valor comercial suficiente para sustentar meu vício de assistir Liga da Justiça Ilimitada ou a nova série animada do Batman. Vivo, hoje, do que outros tecem (antes que estas analogias levantem questões acerca da natureza de meu trabalho, e já rebatendo que "chupim é a puta que o pariu", esclareço que desenvolvo um trabalho formal na área de direitos autorais de execução pública musical; meu sustento, meu toddynho) e até que minha própria produção permita-me fruir deste, hoje, luxos, muitos exemplares do "Relato" terão que deixar os depósitos da Devir...
De qualquer maneira, a vida continua. Quinta-feira veremos quem será o novo desempregado mais famoso do mercado de trabalho e depois, de quebra, nos permitiremos algumas boas risadas com a versão Tom Cavalcante de Roberto Justus em "O Infeliz 2", outra pérola da qual me envergonho, mas que não deixo passar por uma semana sequer...
A todos, meus sentimentos.


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