OS CÃES DO INFERNO


26/07/2005


CONFISSÕES - ALGUÉM ME DÊ TRABALHO REMUNERADO, POR FAVOR!

Bom, só o que me resta agora é pedir socorro.

Estou no limite de minhas forças banais. Atingi o fundo da fossa e a merda cobriu-me de tal maneira que o buraco da boca e aquele do cu, se podem dizer quase os mesmos. Por que? Tudo culpa da TV a cabo. Ou da sua falta. Sou uma escritora publicada. Iniciante, ou não, não vem ao caso, o fato é que quase já posso morrer em paz, dado que plantei um pé de feijão quando ainda no primário (que só não foi para frente porque arrendaram o terreno da antiga escola para a construção de um arranha-céu) e fazer um filho já não é mais um sonho graças à figura masculina e viril que hoje divide comigo o teto, a cama e o toddynho. Desta feita, dir-se-ia que o vivente que vos fala detém ainda o mínimo de chance de vencer na vida. Ledo engano. A tragédia desta cidadã de classe média - trabalhadora dedicada - é ver suas noites de terças e quintas-feiras entretidas com o psico-drama dos pequenos burgueses de "O Aprendiz 2". Sim, senhoras e senhores, esta é minha confissão; esta é a prova de minha decadência. Meu vocábulário agora conta com expressões tais como "feedback", "pró-atividade" e "resultado positivo". Fui consumida pela máquina da futilidade e assisto ao programa com as fichas na mão, apostando em meu cassino mental nesta ou naquela demissão, e - vergonhosamente - me vejo opinando acerca do desempenho deste ou daquele candidato.

Não me admira que meus últimos escritos estejam tão imbuídos de uma tristeza profunda - duas vezes por semana eu assassino, dolosamente, algumas de minhas células cerebrais e aquelas que ainda pulsam, urgem pelo suicídio, tamanha desilusão e desesperança que sentem frente a este comportamento muito homo e nada sapiens da vivente que se intitula senhora desta massa encefálica vitimada.

Tudo porque a queda de receita não me permite mais gozar do entretenimento despretensioso de "Everybody loves Raymond", das risadas geniais de "Whose line is it anyway?", as sequências de ação de "Third Watch", ou mesmo a tensão de "ER". Não. Não mais, senhoras e senhores. Agora só posso lamentar e ouvir do corredor às risadas da vizinhança, sem saber se riem por motivos de canal aberto ou de TV a cabo - uma dúvida que, sem dúvida, irá me atormentar até que eu tenha de volta às mãos as rédeas de minha vida financeira.

Emburreço um pouco mais a cada dia. Estou ficando apática diante da estante de livros e afoita quando me detenho no controle remoto. Eu via menos televisão quando sabia que os canais a cabo estavam ali, ao meu alcance. Agora que não os tenho mais, ligar a TV tornou-se um frenesi, um exercício de loucura e ansiedade. É só eu saber que não tem nada pra se ver, que fico ensandecida buscando, em vão - é claro, o que assistir. Meu dedos coçam, minhas mãos formigam, o controle alternando entre a direita e a esquerda, como se fosse necessário a ambas a experiência da viagem ao deserto do frívolo, chocho e inane (optei pelo verbete 'inane' por ser pouco utilizado e também porque, como se pretende que este espaço seja, pelo menos parcialmente, um espaço de recuperação de saúde intelecutal, daria um toque um pouco menos 'inane' a este assunto já 'inane' em sua mais exaustiva conformação). É a Lei da Escassez ditando as regras de meu comportamento como se eu fosse exatamente o ratinho de laboratório que sou. Rebs, conto com sua misericórdia... 

Adoraria viver somente do que teço, mas o que teço ainda não tem valor comercial suficiente para sustentar meu vício de assistir Liga da Justiça Ilimitada ou a nova série animada do Batman. Vivo, hoje, do que outros tecem (antes que estas analogias levantem questões acerca da natureza de meu trabalho, e já rebatendo que "chupim é a puta que o pariu", esclareço que desenvolvo um trabalho formal na área de direitos autorais de execução pública musical; meu sustento, meu toddynho) e até que minha própria produção permita-me fruir deste, hoje, luxos, muitos exemplares do "Relato" terão que deixar os depósitos da Devir...

De qualquer maneira, a vida continua. Quinta-feira veremos quem será o novo desempregado mais famoso do mercado de trabalho e depois, de quebra, nos permitiremos algumas boas risadas com a versão Tom Cavalcante de Roberto Justus em "O Infeliz 2", outra pérola da qual me envergonho, mas que não deixo passar por uma semana sequer...

A todos, meus sentimentos.

Escrito por Marcela Godoy às 22h26
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Requiem aeternam

 

Lava-me

Com sal dos olhos, seiva da sublimação.

Leva-me

No salto, o sonho sóbrio da expurgação.

Livra-me

Do padecer da carne, dessa expiação.

Louva-me

O féretro fechado, sem explicação.

Lúgubre

No baque da passagem, surda salvação.

Escrito por Marcela Godoy às 19h39
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Bem, meus caros “caninos”, resolvi me antecipar um pouco e, movida por um súbito e raro momento de inspiração, vou cometer o sacrilégio de falar sobre um filme que eu havia pensado em falar somente quando de sua estréia no Brasil: “Sin City”.

 

Posso começar dizendo que tenho uma relação muito pessoal e especial com Sin City – pelo menos com os álbuns recém publicados pela Devir Livraria – por uma razão mito simples: fiz a tradução deles (A cidade do pecado; A dama fatal; A grande matança; e O assassino amarelo). Foi um trabalho maravilhoso, uma experiência indescritível e absolutamente deliciosa que me enriqueceu de diferentes maneiras. Mas não é disso que queremos falar agora. Agora queremos falar de sua adaptação para a telona.

 

Tive a oportunidade de assistir ao filme numa das cabines oferecidas pela Sony Pictures há algumas semanas e posso dizer que saí dali impressionada. É um filme visualmente deslumbrante. Apesar do baixo orçamento, Robert Rodriguez parece ter dado um passo além em diferentes aspectos, ao apresentar ao público uma adaptação “irritantemente” fiel à obra dos quadrinhos e “irritantemente” bela visualmente.

 

Mas vamos lá...

 

Segundo o dicionário Houaiss, de língua portuguesa, define-se por adaptação: “ato ou efeito de converter uma obra escrita em outra forma de apresentação, mantendo-se ou não o gênero artístico da obra original e o meio de comunicação através do qual a obra é apresentada.” Estamos acostumados a entender os filmes inspirados em personagens e/ou enredos das histórias em quadrinhos como sendo “adaptações” destas obras literárias para o cinema. Sin City – o filme, prova que, de fato, todas as outras obras cinematográficas feitas até então, e ditas adaptações de quadrinhos, foram de fato apenas obras inspiradas e não necessariamente adaptações. Isto porque, o que vemos, ao vermos Sin City, é uma literal transposição dos quadrinhos para as telas de cinema. Mesmos enquadramentos, mesmo jogo de luz e sombras, mesmos diálogos... Pode-se dizer que os livros foram usados como ‘story  board’ para o filme.

 

Quem acompanha e se interessa pelo assunto já conhece o enredo do filme que juntou, numa só história,  três dos contos escritos e desenhados por Frank Miller: A Cidade do Pecado, A Grande Matança e O Assassino Amarelo. Há ainda um ‘curta’ de introdução adaptado do pequeno conto “O Cliente tem Sempre Razão”, cujo personagem principal está ali para dar o ‘arremate’ final à história de Sin City como um todo.

 

As tramas foram muito bem amaradas e conduzidas e, bem... Como os elogios são intermináveis, acho que seria mais interessante dar alguma atenção aos pontos que entendo, talvez, negativos, em relação a esta adaptação. (continua abaixo...)

Escrito por Marcela Godoy às 17h28
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O filme tem duração de duas horas e seis minutos e pode-se dizer que dura exatamente o suficiente para não cansar. Quando o espectador começa a ‘remexer’ na cadeira, o filme acaba. Quando saíram os trailers, eu confesso que me passou pela cabeça a pergunta ‘será que um filme de duas horas com este apelo visual não vai ficar cansativo num certo ponto?’. Bem, a resposta é que o filme dura exatamente o que tem que durar. O grande problema é, contudo, a velocidade da narrativa imprimida ao filme e o tratamento dado aos personagens.

 

Quem leu Sin City sabe exatamente como Frank Miller lida com o ‘tempo’ em suas histórias. Uma boa parte de toda narrativa escrita se dá ‘em off’, ou seja, o narrador da história dialogando a todo tempo com o leitor por meio da exposição de seus pensamentos nos recordatórios, elemento fundamental para a construção do caráter dos personagens e do universo que Miller apresenta. De maneira adaptada, isso acontece no filme, o problema, contudo, é que – agora me dirigindo ao público que não leu os quadrinhos – fica faltando tratamento na profundidade dos personagens que, nos quadrinhos, é a marca mais importante. O tempo, neste sentido, é fundamental. Nos quadrinhos estamos falando de uma média de duzentas páginas por álbum em que o autor pode livre e despreocupadamente construir o caráter de seus personagens – adoráveis e odiáveis – e as características do universo em que eles estão inseridos, por meio destas narrativas em off. O filme não tem condições de trabalhar este aspecto em sua plenitude – por razões óbvias – e, como resultado, personagens fantásticos e muito bem elaborados, como Marv (meu favorito!), acabam ficando superficiais. O que é uma grande pena, porque se olharmos friamente para Sin City (o filme) teremos três histórias sanguinárias, em todos os exageros possíveis, que ganham impacto muito mais pela maneira que visualmente estão sendo contadas do que por seu verdadeiro conteúdo.

 

Toda a crítica à sociedade feita por Miller ao criar a cidade imaginária de Sin City, com seus anti-heróis e vilões, se perde num enredo às vezes de difícil compreensão – em vista da velocidade com que a história tem que ser contada – por meio de personagens que, em comparação às suas versões originais, são ‘rasos’ e quase não despertam a empatia do público – definitivamente não a empatia que estes mesmos personagens despertam ao lermos os trabalhos originais.

 

Para o leitor da série de quadrinhos, Sin City é um filme espetacular em todos os aspectos, porque o público de Sin City já conhece o universo que está sendo retratado ali, já tem o seu personagem favorito, o seu vilão mais odiado. Mas o público que desconhece tal universo, talvez não vá se encantar tanto pela idéia de Sin City em sua essência, quanto pelo que o trabalho significa em termos ‘visuais’.

 

A verdade é que para 'amar' Sin City é preciso ler Sin City...

 

Não podemos nos esquecer de que estamos falando de um universo corrompido em toda sua plenitude. Uma versão moderna de Sodoma e Gomorra, uma filial do inferno na terra. Os heróis de Sin City são, na verdade, anti-heróis, e os vilões são tão odiáveis que não nos surpreenderíamos se encontrássemos no ‘quarto de Lúcifer’ um pôster em tamanho gigante do Senador Roark com os dizeres embaixo: I believe! E a maneira primorosa com que Miller constrói estes personagens, a ponto de fazê-los fascinantes – certamente, uma fascinação mórbida, mas ainda assim, fascinação -  é quase que completamente perdida na adaptação feita para o cinema.

 

Bom para nós, leitores, que já sabemos ‘a que vieram’ todas estas pessoas, fruto da imaginação atormentada e do gênio de Miller. Honestamente, espero que o filme leve para as livrarias o público das telas, que ao término da leitura de todas aquelas sagas, certamente estarão na fila de reserva da pré-venda do DVD.

 

No mais, cabe-nos agora esperar pelo novo filme, que já está confirmado para estrear no ano que vem. Como se pretende adaptar A Dama Fatal, ou seja, uma só história, talvez, neste, estas ‘pequenas’ faltas cometidas pela limitação de tempo ao se contar três histórias simultaneamente sejam reparadas e o grande público venha a conhecer e se apaixonar pelo eternamente apaixonado Dwight McCarthy e se divertir um pouco mais com o saudoso Marv, que em A Dama Fatal, ainda não havia.... Bom, deixa pra lá. Tem gente que não viu o filme ainda...

Escrito por Marcela Godoy às 17h28
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Quero chegar aos céus e celebrar as faltas que expiei em vida

Sem saber

Porque cada novo dia é o Dia do Juízo

E cada erguer do sol, a redenção por males das luas passadas.

 

Quero chegar aos céus e derramar as lágrimas que não chorei

Que neguei

Porque voltei meus olhos para a alegria

E fingi sorrir quando o sofrimento me pungia a alma.

 

Quero chegar aos céus e dormir em paz por uma noite inteira

Sem medo

Porque quem soube dos meus sorrisos não soube de meus pesadelos

E mal soube deles quem, deles, sabia!

 

Quero chegar aos céus e responder por tudo o que podia ter feito

E não fiz

Porque a vida foi curta e cheia de dúvidas

E perguntei mais do que busquei respostas...

 

 

 

Escrito por Marcela Godoy às 12h34
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25/07/2005


O surto

Era um facho de lanterna

Um fio de lampião

O resto d’uma vela acesa

No porão

Um braço de memória

Um pedaço de chão

 

Era um punhado de vento

Escorrendo pela mão

A lágrima chorada,

Em vão.

A forma lacerada

Cárcere do são.

 

Era só um devaneio

A mentira sórdida

A farsa de sorrir

A alegria mórbida

Um tal desconcertante

O vício do sentir

 

Era um sonho de mentira

Em noite interminável

O sal sobre a ferida

A cal sobre o cadáver

Na morte da vida

A sorte, a liberdade....

Escrito por Marcela Godoy às 21h01
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É muito bom ser autor das próprias obras! hahaha... Podemos refazê-la, esquecê-la, retomá-la, mudá-la... Enfim... Dan: esta é a forma original...

 

O Amor e o Tempo

 

Eu pensava que existia

um só tempo que contava.

Aprendi: é tão preciso,

o tempo, jamais se atrasa!

Nas areias, nos ponteiros,

em maneiras, não faltava.

Preciso, corria o tempo,

no tempo, que se buscava. (...)

Escrito por Marcela Godoy às 21h00
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(...)

Mas existe um outro tempo:

aquele do coração

Que, por vezes, se confunde

com o tempo da razão

Recriando, então, dois tempos:

o de dentro e o de fora

Um deles muito apressado;

o outro que se demora

Externo, se vai passando;

interno, se congelava

Buscando viver, o tempo,

do tempo que, então, amava.

Perdido, devaneando

nos eons de seus segundos...

Parando, atrasando o tempo,

do tempo de todo mundo!

  

Que tempo, afinal, é este

que se deixa aniquilar?

Não pára, mas não avança

no tempo que vai passar? (...)

Escrito por Marcela Godoy às 20h59
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(...)

É tempo que, sem janela,

esquece que o tempo espia.

Que o dia converte em noite,

que a noite converte em dia...

Que apontando seus ponteiros

para o tempo do instante

Faz eras d'um só segundo;

dos segundos, faz gigantes

É tempo de quem não vê,

que'o tempo ninguém tolera.

É tempo que se consome

no tempo de quem espera...

É tempo de quem delonga,

querendo se eternizar...

Parando no tempo, o tempo,

do tempo que viu passar...

 

 

E'eu pensava que existia

um só tempo que contava...

Mas só no outro entendi

do tempo que me faltava!

Tempo, aquele, do amor,

qu'em ponteiros de fumaça

Faz livre o tempo que corre,

do tempo que já não passa!

Escrito por Marcela Godoy às 20h58
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Estou republicando este poema por duas razões muito especiais: a primeira porque desejo retomar a forma original em que fora escrito e a segunda porque quero dedicá-lo ao meu querido primo Danilo Nonato, a quem devo - integralmente - a idéia de abdicar da mudança em favor desta forma, segundo ele "mais clássica"! Obrigada primão! Amei! "Dois Anjos" é pra você!

 

Dois Anjos

 

Estendeu-me a mão um anjo,

cujo nome eu não sabia.

Prometeu-me eternidade

se o amasse por um dia.

Recusei-lhe o tal pedido,

um só dia não bastava!

Mas jogou-me, ele, no abismo,

sem saber por que’u negava...

 

Uma era transcorreu.

Eu, naquela escuridão!

Eis que um outro anjo veio,

e estendeu-me sua mão.

Disse ele: “É teu, meu tempo,

se, por mim, te compadeces.

Dá-me um pouco de teu ódio

e atendo a tuas preces.”

“Ódio pedes que eu te dê?

Se, aos anjos, só tenho amor!”

E, foi-se, então, o alado.

Deixou-me com minha dor... (...)

Escrito por Marcela Godoy às 20h57
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(...)

Outra era, eu vi passar.

Outro anjo, então, pousou.

O meu ódio não queria;

meu amor, não lhe encantou.

Largou-se, ali, por largar-se.

Ao meu lado, em silêncio...

Nada me pedia em troca,

nunca soube por que veio.

Outra era consumou-se.

Nós dois juntos, lado a lado,

Sem dizer uma palavra,

sem trocar um só olhado.

 

Eis que os dois anjos de outrora

retornaram sem aviso

E postaram-se se costas

no beiral daquele abismo

“Outra chance nós te damos",

me disseram sem me olhar,

“Se a um deres amor,

e ao outro, odiar!” (...)

Escrito por Marcela Godoy às 20h54
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(...)

Ergui-me, a responder.

Em vão. A voz me faltou.

“Deixa”, disse o arauto

que ao meu lado ficou.

“Por que pedes a um homem

o que tens do Criador?”

Mas na voz daquele anjo,

a minha voz se lançou!

Enganados, sem saber,

inda de costa, respondem:

“Quem és tu para saber

do’amor que temos de outrem?”

“Sou aquele a quem não basta,

do que sinto, um só bocado.

Sou o teu sentir sem ser,

em teu ser amargurado!”

Os dois anjos se lançaram,

de joelhos, a chorar

“Perdão, Senhor, piedade”,

repetiam sem parar.

E voaram temerosos,

sumindo na imensidão

Deixando-me a sós de novo,

na eterna solidão... (...)

Escrito por Marcela Godoy às 20h54
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(...)

Ergui meus olhos àquele

que, por minha voz, falou.

Estendi-lhe minha mão,

que gentil, ele tocou.

“E agora?”, perguntei,

“Não desejo, aqui, ficar!

Mas tanto já se passou...

Não tenho, pra’o que, voltar...”

 

“Fecha os olhos", respondeu-me,

"Confia no teu sentir.

E, ao orar, pede por estes

que não souberam te ouvir."

E ao soltar de minha mão

uma paz desconhecida

Me trouxe de novo a luz

que, ali, jazia esquecida.

E numa fração de tempo,

de volta, no tempo, eu estava!

Tudo como sempre fora

à porta de minha casa...

Escrito por Marcela Godoy às 20h53
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Ando surtando ultimamente....

Era um facho de lanterna

Um fio de lampião

O resto d’uma vela acesa

No porão

Um braço de memória

Um pedaço de chão

 

Era um punhado de vento

Escorrendo pela mão

A lágrima chorada,

Em vão.

A forma lacerada

Cárcere do são.

 

Era só um devaneio

A mentira sórdida

A farsa de sorrir

A alegria mórbida

Um tal desconcertante

O vício do sentir

 

Era um sonho de mentira

Em noite interminável

O sal sobre a ferida

A cal sobre o cadáver

Na morte da vida

A sorte, a liberdade....

Escrito por Marcela Godoy às 20h51
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