Como as coisas são... (Os textos abaixo foram extraídos da "Revista Carta Capital". Vale a pena ler até o fim.)
A TÍPICA FRAUDE EXEMPLAR
A revista Época apresenta como “confissão” informações publicadas em CartaCapital em outubro de 2002
Por Redação CartaCapital
Quase três anos atrás, muito antes de a revista Época publicar a “revelação” do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto como notícia exclusiva, CartaCapital mostrava os mesmos bastidores do acordo entre o PT e o PL. Na edição 213, de 30 de outubro de 2002, reportagem de capa de Bob Fernandes contava as andanças da campanha do então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva.
Valdemar.
Conspiração ou mero sensacionalismo?
O texto relata que na noite de 19 de junho de 2002, véspera do prazo final para o registro das candidaturas no TSE, reuniram-se no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília, Lula, José Dirceu, José Alencar, Gilberto Carvalho, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o presidente do PL, Costa Neto. Este último argumentava que, sem as fontes tradicionais de arrecadação de recursos, o partido não teria condições de bancar as campanhas dos candidatos nos estados. Era a senha para negociar com o PT uma contrapartida para o apoio a Lula.
Segundo a reportagem de CartaCapital, os números da negociação giravam em torno de R$ 10 milhões. Em momento algum – tanto em CartaCapital quanto em Época – se diz que naquela ocasião Lula sabia que a fonte de recursos para cooptar o PL seria ilegal.
Diante da dificuldade em fechar o acordo com o PL, Lula se irrita e pede a José Alencar: “Essa é uma conversa entre partidos, se eles pedirem pra você, não dê nada”.
Entre muitos telefonemas, a costura do acordo passou por Belo Horizonte, com Patrus Ananias, que chegou a ser cogitado como possível vice de Lula caso o apoio do PL não vingasse. Ananias reagiu com espanto, quase com reprovação: “Cês tão doido”.
No meio do pedido de ajuda a Ananias, a proposta voltou a ser discutida em Brasília por Dirceu e Delúbio. As chances de o acordo ser fechado pareciam ser cada vez menores quando Costa Neto chamou Dirceu ao quarto onde se dava a negociação (lá aguardava Delúbio) e, acompanhado de José Alencar, teve a confirmação de que PT e PL estariam juntos nas eleições. “Tudo bem, toparam”, disse Dirceu. “Fechou”, confirmou Delúbio.
Os mesmos diálogos foram relatados por Costa Neto à revista Época. Não há coincidências nesta história. Márcia Dias, assessora de imprensa do Diretório Regional do Partido Liberal de São Paulo, esteve na sexta-feira 5 na sede da Editora Confiança, que publica CartaCapital. O motivo da visita foi a aquisição de dois exemplares da edição 213 da revista (Clique aqui para visualizar o recibo que comprova a compra). Com problemas de memória, teria Costa Neto recorrido a CartaCapital para melhor contar a história a Época? É o que parece.
Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher de Costa Neto, analisa a coincidência entre o conteúdo da reportagem de CartaCapital de 2002 e de Época desta semana: “Ele adora requentar notícia”. Maria Christina está em pé-de-guerra com o ex-marido e aproveita para falar da relação do presidente do PL, que recentemente renunciou ao mandato de deputado federal diante da ameaça de cassação. “Se o Lula pudesse, faria como eu e também se divorciaria do Valdemar”, diz. Procurado na sexta-feira 12, o ex-deputado não respondeu aos recados deixados por CartaCapital.
Clique aqui e confira a reportagem publicada em CartaCapital 213, de 30 de outubro de 2002
http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=210
QUANDO A COINCIDÊNCIA NÃO EXISTE
CartaCapital, 30 de outubro de 2002
:: Apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA).
Lá estão Lula, José Dirceu, José Alencar, Gilberto Carvalho e o presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto. Na conversa, uma presenca significativa: Delúbio Soares, tesoureiro nacional do PT. Motivo: para fazer a aliança com o PT, o PL quer uma ajuda.
:: Os números giram em torno dos R$ 10 milhões
O acordo emperra. Lula se irrita, pede a José Alencar:- Essa é uma conversa entre partidos, se eles pedirem pra você, não dê nada.
:: O acordo, parecia, não seria fechado.
José Dirceu chegou a deixar o quarto onde se dava a reunião para comentar:
– Acabou, não tem jeito.
:: Lula: Olha, Patrus, estamos em Brasília e a coisa com o PL hoje ou vai ou racha. Você se prepare porque, se não der certo, seu nome vai ser anunciado como vice hoje mesmo.
:: José Dirceu e Delúbio voltaram com a notícia que, sabe-se hoje, mudaria os rumos da sucessão presidencial:
– Tudo bem, toparam – informou Dirceu.
– Fechou – desabafou Delúbio.
Época, 15 de agosto de 2005
:: Valdemar – Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar, do PL, como vice.
:: Valdemar – Foi uma discussão muito grande. No dia 18 de junho de 2002, tive uma reunião com o Dirceu. Ele disse que não tinha jeito de fazer o aporte de dinheiro.
:: A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT). Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: “Quer dizer então que você é o nosso problema?”. “Não posso matar o nosso pessoal”, respondi.
:: Valdemar – Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: “Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos”. Daí o Delúbio chegou perto
de mim e disse: “Vamos conversar”.
:: Valdemar – O Lula mandou ligar para o (hoje ministro) Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer “acabou”. O Zé Alencar veio junto. Falei: “Vamos acertar por R$ 10 milhões”. Voltamos para a sala e avisamos: “Está fechado”.


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