OS CÃES DO INFERNO


13/08/2005


Como as coisas são... (Os textos abaixo foram extraídos da "Revista Carta Capital". Vale a pena ler até o fim.)

A TÍPICA FRAUDE EXEMPLAR
A revista Época apresenta como “confissão” informações publicadas em CartaCapital em outubro de 2002

Por Redação CartaCapital

Quase três anos atrás, muito antes de a revista Época publicar a “revelação” do ex-deputado federal Valdemar Costa Neto como notícia exclusiva, CartaCapital mostrava os mesmos bastidores do acordo entre o PT e o PL. Na edição 213, de 30 de outubro de 2002, reportagem de capa de Bob Fernandes contava as andanças da campanha do então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva.

Valdemar.
Conspiração ou mero sensacionalismo?
O texto relata que na noite de 19 de junho de 2002, véspera do prazo final para o registro das candidaturas no TSE, reuniram-se no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília, Lula, José Dirceu, José Alencar, Gilberto Carvalho, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o presidente do PL, Costa Neto. Este último argumentava que, sem as fontes tradicionais de arrecadação de recursos, o partido não teria condições de bancar as campanhas dos candidatos nos estados. Era a senha para negociar com o PT uma contrapartida para o apoio a Lula.

Segundo a reportagem de CartaCapital, os números da negociação giravam em torno de R$ 10 milhões. Em momento algum – tanto em CartaCapital quanto em Época – se diz que naquela ocasião Lula sabia que a fonte de recursos para cooptar o PL seria ilegal.

Diante da dificuldade em fechar o acordo com o PL, Lula se irrita e pede a José Alencar: “Essa é uma conversa entre partidos, se eles pedirem pra você, não dê nada”.

Entre muitos telefonemas, a costura do acordo passou por Belo Horizonte, com Patrus Ananias, que chegou a ser cogitado como possível vice de Lula caso o apoio do PL não vingasse. Ananias reagiu com espanto, quase com reprovação: “Cês tão doido”.

No meio do pedido de ajuda a Ananias, a proposta voltou a ser discutida em Brasília por Dirceu e Delúbio. As chances de o acordo ser fechado pareciam ser cada vez menores quando Costa Neto chamou Dirceu ao quarto onde se dava a negociação (lá aguardava Delúbio) e, acompanhado de José Alencar, teve a confirmação de que PT e PL estariam juntos nas eleições. “Tudo bem, toparam”, disse Dirceu. “Fechou”, confirmou Delúbio.

Os mesmos diálogos foram relatados por Costa Neto à revista Época. Não há coincidências nesta história. Márcia Dias, assessora de imprensa do Diretório Regional do Partido Liberal de São Paulo, esteve na sexta-feira 5 na sede da Editora Confiança, que publica CartaCapital. O motivo da visita foi a aquisição de dois exemplares da edição 213 da revista (Clique aqui para visualizar o recibo que comprova a compra). Com problemas de memória, teria Costa Neto recorrido a CartaCapital para melhor contar a história a Época? É o que parece.

Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher de Costa Neto, analisa a coincidência entre o conteúdo da reportagem de CartaCapital de 2002 e de Época desta semana: “Ele adora requentar notícia”. Maria Christina está em pé-de-guerra com o ex-marido e aproveita para falar da relação do presidente do PL, que recentemente renunciou ao mandato de deputado federal diante da ameaça de cassação. “Se o Lula pudesse, faria como eu e também se divorciaria do Valdemar”, diz. Procurado na sexta-feira 12, o ex-deputado não respondeu aos recados deixados por CartaCapital.

Clique aqui e confira a reportagem publicada em CartaCapital 213, de 30 de outubro de 2002
http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=210



QUANDO A COINCIDÊNCIA NÃO EXISTE


CartaCapital, 30 de outubro de 2002

:: Apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA).
Lá estão Lula, José Dirceu, José Alencar, Gilberto Carvalho e o presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto. Na conversa, uma presenca significativa: Delúbio Soares, tesoureiro nacional do PT. Motivo: para fazer a aliança com o PT, o PL quer uma ajuda.

:: Os números giram em torno dos R$ 10 milhões
O acordo emperra. Lula se irrita, pede a José Alencar:- Essa é uma conversa entre partidos, se eles pedirem pra você, não dê nada.

:: O acordo, parecia, não seria fechado.
José Dirceu chegou a deixar o quarto onde se dava a reunião para comentar:
– Acabou, não tem jeito.

:: Lula: Olha, Patrus, estamos em Brasília e a coisa com o PL hoje ou vai ou racha. Você se prepare porque, se não der certo, seu nome vai ser anunciado como vice hoje mesmo.

:: José Dirceu e Delúbio voltaram com a notícia que, sabe-se hoje, mudaria os rumos da sucessão presidencial:
– Tudo bem, toparam – informou Dirceu.
– Fechou – desabafou Delúbio.



Época, 15 de agosto de 2005

:: Valdemar – Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar, do PL, como vice.

:: Valdemar – Foi uma discussão muito grande. No dia 18 de junho de 2002, tive uma reunião com o Dirceu. Ele disse que não tinha jeito de fazer o aporte de dinheiro.

:: A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT). Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: “Quer dizer então que você é o nosso problema?”. “Não posso matar o nosso pessoal”, respondi.

:: Valdemar – Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: “Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos”. Daí o Delúbio chegou perto
de mim e disse: “Vamos conversar”.

:: Valdemar – O Lula mandou ligar para o (hoje ministro) Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer “acabou”. O Zé Alencar veio junto. Falei: “Vamos acertar por R$ 10 milhões”. Voltamos para a sala e avisamos: “Está fechado”.

Escrito por Marcela Godoy às 14h51
[ ] [ envie esta mensagem ]

Para quem não teve chance de assistir ao pronunciamento, aí está sua transcrição na íntegra (fonte Agência Brasil)

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento à nação antes de iniciar a 11ª reunião ministerial de seu mandato. Leia abaixo a íntegra do discurso:

"Meus amigos, minhas amigas. Boa tarde, meu querido companheiro José Alencar, vice-presidente da República e ministro da Defesa, minhas companheiras ministras e ministros, que participam desta reunião."

"Fiz questão de que as minhas palavras neste encontro de trabalho fossem abertas à população brasileira. Temos assuntos importantes a discutir que dizem respeito a toda sociedade. Mas antes de mais nada, quero saudar em especial os novos ministros que vêm reforçar a nossa capacidade de ação nesta segunda metade do meu mandato. Vocês estão entrando num governo, que apesar de todas as dificuldades, fez o Brasil retomar o caminho do progresso e da justiça social."

"Voltamos a crescer, mas desta vez de maneira sustentável, com a inflação baixa e, o que é mais importante, gerando milhões de empregos no campo e nas cidades. Tenho certeza de que o povo sente a diferença, o país está mudando para melhor. "

"A inflação é a menor dos últimos cinco anos, a produção industrial registra aumentos sucessivos. Na balança comercial as exportações ultrapassam a casa dos 110 bilhões de dólares nos últimos doze meses. É o melhor resultado da nossa história. "

"Mas o que mais me orgulha, pela minha história e pelo compromisso que tenho com a gente humilde da nossa terra, é a forte retomada da oferta de trabalho. Em 30 meses já criamos 3 milhões, 135 mil novos empregos com carteira assinada. Isso significa 104 mil novas vagas formais por mês, 12 vezes mais que a média dos anos 90, sem falar nos postos de trabalho no mercado informal e na agricultura familiar. "

"Criamos um ambiente favorável para a volta dos investimentos. Projetos no valor de mais de 20 bilhões de dólares já estão programados para entrar em operação na nossa economia. "

"Novas frentes de expansão em energia elétrica, transportes, novas fábricas e construções fizeram a produção de bens de capital crescer 10% nos últimos dois meses. Na área social, 7 milhões e 500 mil famílias de brasileiros mais humildes têm garantido o acesso a uma renda mínima através do programa Bolsa Família. Até o final do ano, 8 milhões e 700 mil lares serão beneficiados pelo programa. "

"Uma revolução está em marcha no mercado de consumo popular no nosso país. Expandimos o crédito com desconto em folha e muitos trabalhadores puderam pagar as suas dívidas e comprar uma geladeira, um fogão ou outro bem desejado por suas famílias. "

"Por isso, as vendas nesse setor cresceram 21% no segundo trimestre, comparado ao mesmo período de 2004. Este país não pode parar. Tenho certeza de que este é o desejo da sociedade brasileira. "

"Companheiros, ministros e ministras, "

"Estou consciente da gravidade da crise política. Ela compromete todo o sistema partidário brasileiro. Em 1980, no início da redemocratização decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país. "

"Ajudei a criar esse partido e, vocês sabem, perdi três eleições presidenciais e ganhei a quarta, mantendo-me sempre fiel a esses ideais, tão fiel quanto sou hoje. Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. O PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país. Eu não mudei e, tenho certeza, a mesma indignação que sinto é compartilhada pela grande maioria de todos aqueles que nos acompanharam nessa trajetória."

"Mas não é só. Esta é a indignação que qualquer cidadão honesto deve estar sentindo hoje diante da grave crise política. Se estivesse ao meu alcance, já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis por esta situação. Por ser o primeiro mandatário da nação, tenho o dever de zelar pelo estado de direito. O Brasil tem instituições democráticas sólidas. O Congresso está cumprindo com a sua parte, o Judiciário está cumprindo com a parte dele. Meu governo, com as ações da Polícia Federal, estão investigando a fundo todas as denúncias. Determinei, desde o início, que ninguém fosse poupado, pertença ao meu Partido ou não, seja aliado ou da oposição. Grande parte do que foi descoberto até agora veio das investigações da Policia Federal. "

"E vamos continuar assim até o fim, até que todos os culpados sejam responsabilizados e entregues à Justiça. Mesmo sem prejulgá-los, afastei imediatamente os que foram mencionados em possível desvio de conduta para facilitar todas as investigações. Mas isso só não basta. O Brasil precisa corrigir as distorções do seu sistema partidário eleitoral, fazendo urgentemente a tão sonhada reforma política. É necessário punir corruptos e corruptores, mas também tomar medidas drásticas para evitar que essa situação continue a se repetir no futuro. "

"Quero dizer aos Ministros que é obrigação do governo, da oposição, dos empresários, dos trabalhadores e de toda a sociedade brasileira não permitir que esta crise política possa trazer problema para a economia brasileira, para o crescimento deste país, para a geração de empregos e para a continuidade dos programas sociais. Temos que arregaçar as mangas e redobrar esforços. Peço que aumentem, ainda mais, a sua dedicação. Se atualmente vocês, Ministros e Ministras, trabalham até 11 h da noite, trabalhem um pouco mais, até meia noite, uma hora da manhã, porque nós sabemos que muito já fizemos, mas muito mais temos que fazer porque o Brasil precisa de nós. "

"Queria, neste final, dizer ao povo brasileiro que eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas, porque o povo brasileiro, que tem esperança, que acredita no Brasil e que sonha com um Brasil com economia forte, com crescimento econômico e distribuição de renda, não pode, em momento algum, estar satisfeito com a situação que o nosso país está vivendo. "

"Quero dizer a vocês: não percam a esperança. Eu sei que vocês estão indignados e eu, certamente, estou tão ou mais indignado do que qualquer brasileiro. E nós iremos conseguir fazer com que o Brasil consiga continuar andando para frente, marchando para o desenvolvimento, para o crescimento da riqueza e para a distribuição de renda. E eu tenho certeza que posso contar com o povo brasileiro. "

Muito obrigado."

Escrito por Marcela Godoy às 10h07
[ ] [ envie esta mensagem ]

Perfil