OS CÃES DO INFERNO


13/05/2006




Pois é...

Quanto tempo faz? Deixa eu ver o último post... 21 de Março... É, faz um tempinho. A esta altura os amigos freqüentadores do Cães já se convenceram de que eu abandonei de uma vez o blog e não vou mais investir meu precioso e escasso tempo na apreciação de assuntos sem a menor relevância para o andar das carruagens de Vossa Majestade...

Ledo engano, senhoras e senhores.
Cá estou, com muito para dizer e alguma disposição para fazê-lo.

Agora que voltei a poder me sentar sem sofrer com o incômodo de ter a cabeça de um outro vivente pressionando minhas “partes” a todo momento, posso de novo me dedicar ao exercício do “ócio produtivo”, como gosto de chamar, e dividir com vocês – amigos – e todo o resto deste subúrbio intergaláctico que chamamos carinhosamente de “Mundão de Deus”, as minhas saborosas e indigestas babaquices e opiniões desimportantes.

Para fins de esclarecimento sobre a escolha do verbete “incômodo”, acreditem-me: a maternidade pode ser maravilhosa e a gravidez [até certo ponto] um estado poético de ser, mas as medidas aumentadas devida a massa extra contida no saco de água viscosa que um dia você chamou de barriga, podem (e definitivamente hão de) se tornar um incômodo quando pensadas do ponto de vista da física, da matemática e da geometria; afinal, estamos falando de um micro-universo inflacionário em formação e constante expansão contido num outro universo, estacionário, já formado, com fronteiras bem definidas, mas continuamente colocadas à prova.... Uma esfera socada num cubo, um grande fole soprado por uma força maior e invisível... A gravidade ganha toda uma nova apreciação e sentido quando experimentada na gravidez... Enfim...

Por isso, sem culpa alguma, não hesito dizer: sim, um incômodo – especialmente nas últimas semanas....

Mas graças a Deus, ela chegou finalmente. Meu pedacinho de mim, Liah.
Por essas e outras que eu acredito que Deus exista.
Ou um anjo, como ela, não viria para me salvar...

Mas hoje não vou falar de minha filha, não.
Vou tentar retomar o antigo Cães e falar sobre... Sobre....
Catzo!
Quer dizer, não vou falar sobre catzo, “o catzo”, mas “Catzo! Vou falar sobre o que??”.
Nada me resta, exceto o que tenho vivido ultimamente, e o que tenho vivido ultimamente é a maternidade...

Ok, então falemos sobre a maternidade.

Eu nunca pensei que seria mãe um dia. Nunca acreditei nisso.
Vários motivos, posso dizer, que não caberiam citação aqui... O fato é que eu nunca me vi mãe de ninguém. Nunca tive a vocação... Tentei flores um tempo, todas secavam. Um peixe que “afogou-se” no lodo que se formou sobre a água que eu nunca troquei ou tratei.... Até bicho virtual eu já tive, aquele “Tamagoshi”, “Tamagushi”... (ou será que este era o nome de um colega de sala?....). Fora cuidar de mim mesma. Fumava um maço de Marlboro por dia, e vivia à base de Ruffles e Coca-Cola. Bem, não vou ficar aqui contanto a história da minha vida, mesmo porque quem freqüenta o Cães sabe exatamente qual era minha rotina até eu conhecer meu marido e então no que esta rotina se transformou (na verdade, como eu me transformei) quando me casei e o resultado disso poucos meses depois com minha gravidez... Eu não sou o foco desta vez, mas a experiência que vivi como resultado desta transformação: a tal maternidade....


Vejamos, então, o que nosso amigo Houaiss diz sobre o verbete “mãe”:

1 mulher que deu à luz, que cria ou criou um ou mais filhos;
2 fêmea de animal que teve crias ou que cuida ou cuidou delas;
3 Derivação: por extensão de sentido. Pessoa que dispensa cuidados maternais, que protege, que dá assistência aos necessitados;
4 pessoa ou entidade infalível em dar ajuda quando precisam dela;
5 Derivação: sentido figurado. o que dá origem a; causa, fonte;
6 Derivação: sentido figurado. país, lugar onde algo teve origem, começou, se desenvolveu, se aperfeiçoou, ou de onde se dividiu, se ramificou etc.;
6.1 sede de uma casa comercial, instituto bancário etc., com relação às suas sucursais, ou convento principal com relação às casas religiosas que a ele se subordinam.

É interessante como a palavra “mãe” se aplica tanto a ‘gente’ quanto a ‘coisa’.
É interessante como a figura da mãe pode ser abstrata ou concreta, subjetiva ou objetiva, substantivo ou adjetivo... Você escolhe! Quer a mãe tangível? Procure por ela em sua cadeia de DNA. Quer a intangível, procure por ela em seus pensamentos, em seus sentimentos. A orfandade não existe: mãe todos temos, e o que faz a diferença é a distância que nos une ou nos separa.

(CONTINUA...)

Escrito por Marcela Godoy às 01h41
[ ] [ envie esta mensagem ]

(....CONT....)

Eu sempre tive uma estranha relação com a maternidade. Minha experiência, contudo, não se deu pelo questionamento acerca do que a maternidade significava de maneira geral, e do que significou em minha vida. Ao contrário, por uma série de motivos que não cabem aqui, eu simplesmente me fechei para o assunto total e completamente.
De repente decidi que jamais seria mãe e, pior talvez, que jamais seria filha... Não é fácil abdicar de uma condição para a qual a natureza te conduz, mais difícil ainda é abdicar de uma condição a qual a natureza te impôs. Deixar de ser filha, creio, deva ter sido a mais difícil escolha que fiz.

Isso se seguiu durante alguns anos, até que um raio caiu sobre minha cabeça causando o choque que “bootou” meu cérebro e reiniciou todos os meus sistemas. O baque foi tamanho que recarregou aquela informação há muito adormecida, fazendo-a regressar de maneira como se jamais se houvesse ido. Loucura, insanidade.

E lá estava eu, sendo filha outra vez. E não entendendo o que isso significava... Principalmente porque, ao contrário do que manda a regra, ela (minha mãe) precisava de mim... Naquela piada quântica, eu fazia o papel dela! Assumia aquele lugar que então eu mesma havia declarado desocupado. Era como se eu tivesse dormido num tempo e acordado num amanhã alternativo, onde a inversão de papéis era o natural, e eu não precisava pensar sobre aquilo porque seria como pensar sobre o motivo pelo qual respiramos... Mundo estranho. O fato é que eu talvez não tivesse conseguido lidar com a mudança se não houvesse, anos antes, feito a escolha de abrir mão da minha ‘filiação’. O preparo foi duro, mas eficiente. Um destes paradoxos explicáveis somente por meio daquela mão invisível que indica o caminho sem se fazer notar. Creio muito Nela, nesta “mão”... E quando eu achava que já havia cumprido meu papel – que ainda venho cumprindo – o Beta-HCG me chega como um chute na boca do estômago. E só então eu entendo que jamais houve uma inversão de papéis... Que tudo aquilo fora meramente uma alegoria, uma fantasia que me ajudava a lidar com o medo da saudade.

A verdade é que, até ali, eu sempre fora filha. Nunca havia deixado de ser filha... Nunca até aquele momento. Nunca, até tomar aquele exame nas mãos e descobrir que ali estava, concretamente documentada, a inversão de papéis. Um envelope... E um pedaço de papel que afirmava, sem qualquer sombra de dúvidas, que eu me tornava, naquele instante, mãe...

Eu acho que os filhos vêm ao mundo para salvar a vida dos pais.

Cada dia mais tenho certeza disso. Minha filha salvou a minha. Começou a fazê-lo ainda no ventre, com poucos dias de formação embrionária. Seu primeiro grande feito foi me fazer largar o vício do cigarro. Dois dias antes de descobrir que estava grávida, comecei a me sentir mal cada vez que colocava um cigarro na boca. Náusea, tontura... Não me esqueço. Era uma sexta-feira, 26 de agosto de 2005, e me lembro bem de ter aposentado o maço de cigarros durante todo o fim de semana – para meu próprio espanto e convencimento. Na segunda-feira eu descobri a gravidez. Eu estava grávida havia somente 17 dias... Dezenove dos meus trinta e dois anos de vida, eu passei fumando. E não houve mãe que me fizesse largar o vício, foi preciso uma filha... Uma filha com apenas 17 dias de gestação...

Acho que fiz uma coisa parecida por minha mãe.
Não vou contar o quê, mas fiz. Eu e meus irmãos fizemos. (....CONTINUA...)

Escrito por Marcela Godoy às 01h41
[ ] [ envie esta mensagem ]

...CONT...

Eu tendo a interpretar os fatos como se eles fossem mensagens abstratas enviadas por uma inteligência maior, então quando isso aconteceu (minha gravidez e a desistência do cigarro), uma ‘venda’ invisível se desatou de minha fronte. Lá estava ela, minha filha, me salvando, e ela nem sequer era um feto ainda... Só um embrião, um feijãozinho de 1 cm alojado no meio do nada...

Tudo fez sentido, todos aqueles anos, aquela dura escola...

A verdade é que nosso papel como filhos é salvar nossos pais dos pais deles, e deles mesmos. Nós, filhos, chegamos para que os filhos “de alguém” deixem de ser filhos e se tornem pais, nossos pais. É simples assim. E é somente nesta quebra que todo o caminho percorrido encontra razão de ser e sentido.

Eu amei minha mãe muito mais quando descobri que era, eu mesma, mãe.
Eu a amei ainda mais por todos os seus erros e acertos porque eles me prepararam, ou pelo menos me proveram do mínimo de capacidade e força para assumir o papel que, até então, era dela. E desde então venho aprendendo com ela o que ela aprendeu comigo: a ser mãe. É engraçado como minha mãe nunca conseguira me mostrar o que era de fato ser mãe até que eu houvesse me tornado uma!

Hoje eu olho para minha mãe e entendo o que aquele pedacinho de gente, minha filha, significa para mim. E me inspiro em nossas histórias (minhas e de minha mãe) para fazer as escolhas por minha filha. Porque é isso que fazem as mães, escolhem por nós. E nós só vamos entender estas escolhas quando nos tornarmos, nós mesmas, mães. Porque vamos escolher por nossos filhos. E eles vão nos cobrar por estas escolhas e nós nunca vamos conseguir fazê-los entender por que fizemos as escolhas que fizemos...
Não até que chegue a vez deles de assumir este papel...

Sim, os filhos vêm para nos salvar. Não importa como, e não significa que o caminho será fácil. Sabemos, de fato, que nunca é, posto que alguns pais jamais deixam de ser filhos. E outros simplismente não querem ser salvos...! De qualquer maneira, os filhos vêm para nos mostrar onde erramos e acertamos como filhos, e é isso que – pretensamente – nos faz acreditar que somos “bons ou maus pais”. É um pensamento ingênuo, eu sei, mas verdadeiro. Principalmente porque estou convencida de que minha filha me salvou. Assim como estou convencida de que meu amor e o amor de meus irmãos salvaram minha mãe... E o amor de minha mãe e tias/os salvaram minha avó...

Certa ou errada, que importa, eu gosto de acreditar que “há salvação para mim!”.
E só que posso fazer é agradecer a Deus por esta chance de redenção que me foi dada com a maternidade. Já tive muitas chances de fazer a coisa certa, mas nenhuma como esta. E, embora eu saiba das minhas imperfeições – não que eu as conheça a todas, mas sei que as tenho! – e das minhas limitações; embora eu saiba que meu julgamento não é de maneira alguma o modelo do ideal, embora eu saiba que erro e que vou errar ainda mais; carrego em meu colo e amamento a oportunidade que Deus me deu de ser uma pessoa melhor. Só me cabe agarrá-la. E enchê-la de beijos e abraços! Em tempo, tentar mostrar a ela alguns caminhos... Errar sem saber que errei, o que a levará a ‘acertar’ quando a vez dela chegar de assumir meu lugar no oroborus....

Quem sabe?..... Enfim......

PS: Este post nada teve a ver com a chegada do Dia das Mães... Foi mera coincidência...
Liah tem 17 dias hoje...

Escrito por Marcela Godoy às 01h41
[ ] [ envie esta mensagem ]

Perfil