OS CÃES DO INFERNO


14/06/2006




Há o tempo de nascer e o tempo de crescer. O tempo de semear e o tempo de colher. Mas há também o tempo que se perde entre estes dois. O tempo em que as mãos se estendem, mas não se tocam; o profundo abismo entre o antes e o depois, um limbo silencioso, e de silêncio; um vale nublado de perguntas e saudade – o tempo que o tempo se dá para que o tempo passe.

Eles caíram neste abismo. Ela e ele.
Perderam-se neste tempo.
E perderam-se um do outro.

Sem que percebessem, de repente estavam separados sem jamais haverem soltado as mãos. E seguiram na mesma direção, para frente, lado a lado, sem se notarem. Em muitos momentos podiam ouvir um ao outro, mas eram momentos em que falavam consigo mesmos, não entre ambos. Vez por outra, chamavam-se silenciosamente, como numa prece. Quase podiam se ouvir. Choravam, e então sorriam, certos de que, em algum momento, o tempo que se dava o tempo, haveria de se consumir. E tudo voltaria a ser como sempre foi.

Mas não foi o que aconteceu.
Passava o tempo; passavam os passos, e aquele desejado encontro jamais encontrava lugar... Finalmente, eles desistiram de acreditar. Desistiram de esperar. E se separaram de uma vez. Soltaram as mãos, cujas amarras daquele tempo mantinham atadas, e deram-se as costas definitivamente, começando, enfim, a caminhar em direções opostas, certos de que o passado ficaria no passado, convencidos de que o tempo que o tempo se havia dado era, tão somente, para sempre...

Mas para sempre é infinito...
E o infinito é perpétuo...
Um loop-perpétuo...

Devagar e desacreditados, eles começaram a caminhar, sem saber, sobre aquela forma imaginária. Caminharam exaustivamente, a passos curtos e largos, em seu próprio tempo, que, sem pressa, parecia afastá-los cada vez mais...

Até que foram surpreendidos por eles mesmos... Viram-se, de repente, frente-a-frente, naquele encontro não-marcado que pouco ou nada durou, mas que - finalmente - teve lugar...

E eles perceberam que se não mais caminhassem lado-a-lado, ao contrário, se se dessem as costas e seguissem as linhas daquele loop, haveriam de perpetuar aquele encontro, e promover novos encontros... Quanto mais caminhassem em direções opostas, mais haveriam de se encontrar, e cada encontro seria único porque seria breve... E eles haveriam que andar cada vez mais e mais rápido, porque quanto mais caminhassem, para frente, um contra o outro, mais e mais vezes o encontro haveria de se repetir...

Porque o loop é perpétuo...
E o que é perpétuo é infinito...
E o que é infinito dura para sempre.

Com todo meu amor, para meu amigo Vinícios do Amaral, que no último dia 12 completou apenas 33 primaveras das infinitas estações de seu loop-perpétuo.

Escrito por Marcela Godoy às 23h51
[ ] [ envie esta mensagem ]

"O primeiro relato da queda de um demônio"


"Há muito, muito tempo, quando a união dos continentes ainda formava um enorme waffle flutuante chamado Pangea, havia na região que hoje chamamos América do Sul um belo jardim chamado Éden*. Um lindo querubim caminhava sobre pedras preciosas entre as árvores frondosas daquele oásis. Ele estava muito orgulhoso de si mesmo pois há pouco havia se emancipado e adquirido sua independência financeira. Seu nome era Lúcifer e se ocupava em realizar palestras sobre auto-ajuda, nas quais discursava acerca de seus temas favoritos: "Como construir seu trono sobre as estrelas", "Seja uma divindade em 666 horas" e "Tenho potencial para ser o Chefe". Luci (como era chamado Lúcifer pelos amigos íntimos, principalmente o jocoso Azazel) trabalhava também na compilação de seus ensinamentos na forma de livro, mas sofria com as interferências de seu editor, que considerava ser o próprio diabo. Enquanto vagueava pelo jardim divagando em pensamentos de grandeza e feliz pela invenção de seu mais novo método para encarnação em serpente, Lulu (como era chamado Lúcifer pelos amigos íntimos, principalmente o jocoso Azazel) não observou que havia no chão, entre um topázio e um jaspe, uma casca de banana lançada ali por um ser chamado Adão que acabara de fazer uma grande besteira ao subir na bananeira e comer desse fruto num ‘paraíso tropical’ . Andando com suas asas recolhidas de forma desavizada e imprudente numa dimensão sujeita à gravidade, Lu (como era chamado Lúcifer pelos amigos íntimos, principalmente o jocoso Azazel) escorregou no que sobrou do fruto proibido e sofreu uma queda patética, estatelando a testa no chão e gerando dois galos enormes na fronte que mais pareciam chifres. A ‘terça parte’ dos anjos que observava tudo de um local privilegiado, caiu de rir. O homem, que após seu ato de desobediência estava sujeito à morte, morreu de rir. A mulher que havia primeiro provado a banana, sentiu dores de parto de tanto rir. A serpente que acabara de perder seus braços e pernas e andava em zigue-zague, se contorcendo devido a uma hemorróida que não tinha meios para coçar, exclamou em meio às gargalhadas: - Esse filho da puta bem merecia isso depois de me colocar nessa fria! Coce meu cu com esse tridente, bastardo, hahahahahahahaha!

O querubim se levantou e bateu a poeira de sua roupa escarlate. Ajeitou sua linda cabeleira. Levantou seu habitual olhar imponente e esnobe. Olhou para todos com a impáfia de um leão que observa hienas ensandecidas e murmurou: - Esse paraíso precisa de um choque de gestão.



Isso é tudo o que sei sobre o primeiro relato da queda de um demônio."



* Teólogos yankees acreditam que o tal jardim, também conhecido como Paraíso, se localiza na região da Mesopotâmia, no Oriente Médio. Tal crença originou uma recente cruzada em busca das riquezas do Éden, inundando de hordas ocidentais o território entre o Tigre e o Eufrates. Segundo a cabeça de um empresário americano que foi separada do corpo durante essa empreitada, embora exista no local muito conhecimento sobre o bem e o mal, algumas serpentes peçonhentas, muitos frutos proibidos, espadas flamejantes, alguns animais ainda não nomeados pelo homem e sujeitos nus sendo surrados por uma série de diabos, nada disso faz esse Éden se parecer com o paraíso narrado no Gênesis de Moisés. Obviamente, pura precipitação de uma cabeça decepada que no momento em que conheceu o fio da espada ainda não sabia que o barril de fruto proibido já havia passado dos 50 dólares.

Este maravilhoso texto foi escrito por Marido (que também atende por Evandro) e está publicado no blog dele.
Na verdade, não era para eu dizer que ele tem um blog.
Muito menos republicar textos dele...
Ele vai ficar louco...
Xiiiii....

Escrito por Marcela Godoy às 22h31
[ ] [ envie esta mensagem ]

Perfil