"BRASIL, O NAUFRÁGIO DA ÉTICA"
O escândalo dos sanguessugas é perfeito exemplo da amoralidade dos senhores. Sem falar do desfecho de Belíssima...
Por Mino Carta
"Tu quoque, Emerson Kapaz? Estou entre atônito e perplexo. Tomo nota de que ele nega qualquer semelhança com sanguessuga. A ex-mulher afirma, porém, que misteriosa quantia aninhou-se de inopino na sua conta bancária. Quem me apresentou ao jovem Kapaz foi Oded Grajew, digníssima figura, nos tempos da ditadura. Sonhávamos com liberdade. O regime fardado bateu em retirada espontânea, mas a liberdade só valeu para alguns, dispostos a entendê-la como impunidade.
Resta provar, em definitivo, que Kapaz participa dessa operação de punguismo parlamentar, a reunir um quinto do Congresso. Sanguessugas de pequeno porte, creio que se habilitariam a furtar a sacola das esmolas durante a missa. Representativos, contudo, de uma sociedade afluente e profundamente aética. Donde, feroz, arrogante, irresponsável, predadora.
Incompetente, muito, excepcionalmente. Mandam em um país beneficiado pela natureza de inúmeros pontos de vista, e sempre o trataram como se fosse terra de conquista a ser explorada sem nada receber em troca. Às vezes escondem-se em um pretenso patriotismo, último refúgio dos canalhas. E engalanam seus bem-amados carros com bandeirinhas verde-amarelas nos dias de jogo da seleção.
Hipócritas, muito, excepcionalmente. Perfeitos descendentes dos senhores que estupravam as meninas escravas na senzala e engoliam hóstias aos domingos na capela da casa-grande. A imagem não é minha, porém da lavra do professor Carani, brasileiro e zeneise como eu, ambos nascemos em Zena, ou seja, Gênova.
O próprio caso dos sanguessugas oferta o exemplo da hipocrisia senhorial. A mídia, salvo raras exceções, enxerga-o como resultado da gestão petista. Ocorre que a origem do caso remonta a seis anos, e seu ápice foi atingido em 2002. Tempo do reinado do príncipe dos sociólogos, o FHC que nos invejam de um pólo a outro. De todo modo, esse esforço concentrado e patético para debilitar a candidatura Lula à reeleição ganha outros exemplos, bastante eficazes.
Faz pouco tempo, o candidato tucano ao governo de São Paulo, José Serra, e o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, viram, atrás da ação do PCC, a mão petista. Não é por acaso, no entanto, que o PCC é fenômeno de pura marca brasileira, único no mundo atual. De quem é a responsabilidade? Da maldade humana, aquela detectada por Cesare Lombroso, ou de outra maldade, aquela dos predadores hodiernos e de antanho?
Há quem pretenda comparações com a Colômbia dos tempos do traficante Escobar, à testa de um poder paralelo. O planeta, no entanto, curva-se. A novidade, o toque da imaginação e do sestro, está no fato de que o próprio Estado brasileiro se torna refém dos presidiários. E tende a tornar-se cada vez mais.
Há também quem observe que a desgraça reina em todos os cantos do globo terrestre. É inegável. Mas é inegável, também, que o Brasil é vice-campeão mundial em má distribuição de renda, exibe um PIB abaixo de medíocre, suas metrópoles constam entre as mais perigosas do mundo. Etc. etc. etc. Espanta a insensibilidade de tantos, graúdos e nem tanto, aspirantes a graúdos. É claro sintoma do esgarçamento moral que assola o País.
Sabe-se que a Globo, ao longo de suas novelas, faz pesquisas para averiguar os humores do público. Belíssima, o mais recente e retumbante sucesso, texto de Sílvio de Abreu. Concluiu-se com o triunfo do mal. A vilã, homicida e ladra, acaba em Paris, em flat infindo de janelas escancaradas para a Tour Eiffel, com garantia de conta na Suíça e a companhia de mancebo sequioso, a despeito de entrada em anos, intermináveis. Consta que a Globo atendeu aos resultados da derradeira pesquisa, a maioria exigia a glorificação do crime."
Publicado no Editorial da Carta Capital desta semana.
Ah, você lê a Veja... Mmmm... Bem, nem tudo está perdido...
Ainda há tempo de mudar.
Sempre há.


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