Querida Karen,
Estou dirigindo este post diretamente a você em consideração não apenas à nossa amizade, mas também ao esforço que você vem fazendo nos últimos dias para melhor usar seu voto no dia 1º de Outubro. Eu jamais teria a pretensão de dizer a você em quem você deva votar. Isso não seria democrático. O que eu posso fazer por você, contudo, é incentivá-la a alimentar ainda mais este seu inato espírito crítico.
Se não estou enganada, esta será sua primeira experiência como eleitora para eleições do governo estadual e federal. Assim como você, um número imenso de jovens eleitores irão às urnas neste domingo, alguns com a opinião formada acerca do que querem e outros, como você, sem saber exatamente o que fazer.
Minha resposta para você é simples: vote naquele candidato com o qual você mais se identifica e que mais poderá fazer por você. Quando digo “você”, não me refiro somente à sua pessoa, mas também à classe social a que você pertence.
De maneira geral e bem simplificada, podemos dividir a sociedade brasileira (do ponto de vista da renda) entre rico, classe-média alta, classe-média baixa, pobre e miserável. Para votar, você tem que saber exatamente em qual destas classificações você se encaixa.
Infelizmente, existe no Brasil um preconceito muito grande da classe-média para com a própria classe-média. Principalmente porque o cidadão de classe-média, que sabe que não é rico, na maioria das vezes é levado a crer que “é feio” dizer que é pobre. Isso piora muito quando falamos da classe-média das regiões sudeste e sul, uma classe-média naturalmente preconceituosa e racista. Aliás, este racismo e preconceito estão de tal maneira impregnados na cultura do sudeste que sequer nos damos conta da naturalidade com a qual dizemos “fulano é um baianinho”, tal qual não houvesse aí qualquer intenção de ofensa. A verdade, embora feia e suja, é que a classe-média baixa tem vergonha de dizer que é pobre, e a classe-média alta faz de tudo para se parecer com os ricos. E isso acaba ficando no caminho quando a coisa tem que ser analisada do ponto de vista das convicções políticas e ideológicas de cada um. Em outras palavras, na hora do vamos ver, a classe-média não sabe a quem ela "deve servir", se ao rico (que ela sonha ser um dia), ou ao pobre (que veladamente ela detesta, mas sabe que tem idenficação).
Seria impossível discorrer num e-mail sobre as diferenças de políticas sociais e econômicas defendidas pela direita capitalista neo-liberal (hoje oposição, representada pela coligação PSDB-PFL) e pelo governo (que não podemos afirmar ser de “esquerda” de fato, mas que teve uma política voltada para a diminuição das desigualdades sociais inerentes ao sistema capitalista neo-liberal da direita). Na prática, hoje, para você, a três dias das eleições, isso tudo é groselha. Você mesma sabe que não tem (ainda) fundamentação teórica suficiente para tomar uma decisão que seja de fato “politizada”, mas sabe também que não pode ficar em cima do muro.
Então no seu caso, minha querida, faça o seguinte: busque identificação.
Pergunte-se qual candidato entre Lula e Alckmin (sabemos que o Cristovam Buarque e a Heloísa Helena não iriam para um segundo turno, caso houvesse); e entre Serra e Mercadante, que mais se parece com você do ponto de vista de sua classe social. Esqueça, apague, toda e qualquer influência da mídia em relação a este bombardeio (que já encheu o saco! Ainda bem que acabou!) de notícias sobre corrupção, porque você não tem parâmetro para julgar este mérito, na medida em que apenas o governo atual é que está sendo alvo destas acusações e há, declaradamente, um esforço conjunto da mídia para manter debaixo do tapete as falcatruas do governo anterior e outros governos. E não se iluda. Seria mentiroso afirmar, como afirmam muitos candidatos, que é possível acabar com a corrupção. A corrupção não pode ser vencida, pois é um mal que está impregnado no coração do homem desde tempos imemoriais. E isso não fui eu que disse, está em Gênesis 6:5-6 “Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração”. E se você acha este argumento pouco convincente, coloquemos a coisa de maneira mais direta: a corrupção não pode ser vencida porque faz parte da lógica e da dinâmica do sistema. A corrupção, ou no nosso jargão, aquele famoso “por fora” é cultural e todos sabemos disso. Se até garçom só te trata bem se você der gorjeta, que dirá político...
Neste sentido, quais são suas opções?
De um lado você tem um ex-operário, ex-líder sindical, sem curso superior, que dedicou sua vida às causas do trabalhador encabeçando greves, passeatas, comícios, agüentando o dia inteiro em pé em porta de fábrica, conduzindo negociações com o empresariado para a busca de melhores condições salariais e de benefícios para as classes trabalhistas e que, uma vez eleito presidente, procurou durante seu governo defender, na medida do possível, os interesses dessa mesma classe a que ele sempre pertenceu e daquela parcela do povo brasileiro que sequer tinha acesso ao mercado de trabalho. Ele fez um governo de esquerda? Certamente que não, mas procurou dirigir a maior parte dos recursos para a preservação e engrandecimento das empresas nacionais (ou seja, freou as privatizações) e voltou boa parcela dos recursos públicos para a diminuição das desigualdades sociais.
De outro, você tem um médico, que nunca participou de greve, que nunca fez comício em porta de fábrica, que nunca trabalhou com carteira assinada e cartão de ponto; que conta, com muito orgulho, ter iniciado sua carreira política aos dezenove anos, em Pindamonhangaba, como vereador, e de lá para cá ter tido somente a política como profissão. Ele cursou medicina numa universidade particular, nunca exerceu esta (ou qualquer outra) profissão de fato, e faz parte da Opus Dei (http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1106776-1653,00.html).
Veja mais detalhes de sua biografia acessando o link: (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u14099.shtml ). Não vou dizer para você colocar no peso de sua balança o fato de o PCC se haver criado e desenvolvido durante os 12 anos de governo do partido deste candidato (seis dos quais sob comando pessoal dele mesmo) porque você pode achar que meu discurso está sendo tendencioso... Mas o PCC é um fato, e você deve mantê-lo em mente pelo menos para analisar o governador que voce pretende eleger.
Agora basta a você responder à pergunta: com qual dos dois eu me identifico mais? Qual dos dois está mais próximo de minha classe-social? Qual deles defende o interesse do rico e qual deles defende o interesse do pobre?
É a gravata versus o macacão.
Fique tranqüila.
Tenho certeza de que até dia 1º, você terá a resposta.
E quanto ao debate de hoje, honestamente, se eu fosse o Lula faria exatamente o que ele fez. Se ausente ele já foi chamado chefe de quadrilha, imagine do que ele não seria chamado se estivesse presente. Ademais, foi bom ele não ter aparecido, afinal as campanhas políticas da oposição foram tão bombardeadas de informação só sobre a "corrupção do governo Lula" que a gente não ficou sabendo de proposta de governo nenhuma... E engraçado que hoje, que eles tiveram chance de falar sobre isso porque o alvo dos ataques não estava presente, eles ainda assim insistiram em só atacar a cadeira vazia... Não é engraçado?
Leia a nota que Lula encaminhou à Rede Globo e julgue por você mesma se a decisão dele não foi mesmo a mais acertada...
Três contra um é covardia!


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