OS CÃES DO INFERNO


29/09/2006


Querida Karen,

Estou dirigindo este post diretamente a você em consideração não apenas à nossa amizade, mas também ao esforço que você vem fazendo nos últimos dias para melhor usar seu voto no dia 1º de Outubro. Eu jamais teria a pretensão de dizer a você em quem você deva votar. Isso não seria democrático. O que eu posso fazer por você, contudo, é incentivá-la a alimentar ainda mais este seu inato espírito crítico.

Se não estou enganada, esta será sua primeira experiência como eleitora para eleições do governo estadual e federal. Assim como você, um número imenso de jovens eleitores irão às urnas neste domingo, alguns com a opinião formada acerca do que querem e outros, como você, sem saber exatamente o que fazer.

Minha resposta para você é simples: vote naquele candidato com o qual você mais se identifica e que mais poderá fazer por você. Quando digo “você”, não me refiro somente à sua pessoa, mas também à classe social a que você pertence.

De maneira geral e bem simplificada, podemos dividir a sociedade brasileira (do ponto de vista da renda) entre rico, classe-média alta, classe-média baixa, pobre e miserável. Para votar, você tem que saber exatamente em qual destas classificações você se encaixa.

Infelizmente, existe no Brasil um preconceito muito grande da classe-média para com a própria classe-média. Principalmente porque o cidadão de classe-média, que sabe que não é rico, na maioria das vezes é levado a crer que “é feio” dizer que é pobre. Isso piora muito quando falamos da classe-média das regiões sudeste e sul, uma classe-média naturalmente preconceituosa e racista. Aliás, este racismo e preconceito estão de tal maneira impregnados na cultura do sudeste que sequer nos damos conta da naturalidade com a qual dizemos “fulano é um baianinho”, tal qual não houvesse aí qualquer intenção de ofensa. A verdade, embora feia e suja, é que a classe-média baixa tem vergonha de dizer que é pobre, e a classe-média alta faz de tudo para se parecer com os ricos. E isso acaba ficando no caminho quando a coisa tem que ser analisada do ponto de vista das convicções políticas e ideológicas de cada um. Em outras palavras, na hora do vamos ver, a classe-média não sabe a quem ela "deve servir", se ao rico (que ela sonha ser um dia), ou ao pobre (que veladamente ela detesta, mas sabe que tem idenficação).

Seria impossível discorrer num e-mail sobre as diferenças de políticas sociais e econômicas defendidas pela direita capitalista neo-liberal (hoje oposição, representada pela coligação PSDB-PFL) e pelo governo (que não podemos afirmar ser de “esquerda” de fato, mas que teve uma política voltada para a diminuição das desigualdades sociais inerentes ao sistema capitalista neo-liberal da direita). Na prática, hoje, para você, a três dias das eleições, isso tudo é groselha. Você mesma sabe que não tem (ainda) fundamentação teórica suficiente para tomar uma decisão que seja de fato “politizada”, mas sabe também que não pode ficar em cima do muro.

Então no seu caso, minha querida, faça o seguinte: busque identificação.

Pergunte-se qual candidato entre Lula e Alckmin (sabemos que o Cristovam Buarque e a Heloísa Helena não iriam para um segundo turno, caso houvesse); e entre Serra e Mercadante, que mais se parece com você do ponto de vista de sua classe social. Esqueça, apague, toda e qualquer influência da mídia em relação a este bombardeio (que já encheu o saco! Ainda bem que acabou!) de notícias sobre corrupção, porque você não tem parâmetro para julgar este mérito, na medida em que apenas o governo atual é que está sendo alvo destas acusações e há, declaradamente, um esforço conjunto da mídia para manter debaixo do tapete as falcatruas do governo anterior e outros governos. E não se iluda. Seria mentiroso afirmar, como afirmam muitos candidatos, que é possível acabar com a corrupção. A corrupção não pode ser vencida, pois é um mal que está impregnado no coração do homem desde tempos imemoriais. E isso não fui eu que disse, está em Gênesis 6:5-6 “Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração”. E se você acha este argumento pouco convincente, coloquemos a coisa de maneira mais direta: a corrupção não pode ser vencida porque faz parte da lógica e da dinâmica do sistema. A corrupção, ou no nosso jargão, aquele famoso “por fora” é cultural e todos sabemos disso. Se até garçom só te trata bem se você der gorjeta, que dirá político...

Neste sentido, quais são suas opções?

De um lado você tem um ex-operário, ex-líder sindical, sem curso superior, que dedicou sua vida às causas do trabalhador encabeçando greves, passeatas, comícios, agüentando o dia inteiro em pé em porta de fábrica, conduzindo negociações com o empresariado para a busca de melhores condições salariais e de benefícios para as classes trabalhistas e que, uma vez eleito presidente, procurou durante seu governo defender, na medida do possível, os interesses dessa mesma classe a que ele sempre pertenceu e daquela parcela do povo brasileiro que sequer tinha acesso ao mercado de trabalho. Ele fez um governo de esquerda? Certamente que não, mas procurou dirigir a maior parte dos recursos para a preservação e engrandecimento das empresas nacionais (ou seja, freou as privatizações) e voltou boa parcela dos recursos públicos para a diminuição das desigualdades sociais.

De outro, você tem um médico, que nunca participou de greve, que nunca fez comício em porta de fábrica, que nunca trabalhou com carteira assinada e cartão de ponto; que conta, com muito orgulho, ter iniciado sua carreira política aos dezenove anos, em Pindamonhangaba, como vereador, e de lá para cá ter tido somente a política como profissão. Ele cursou medicina numa universidade particular, nunca exerceu esta (ou qualquer outra) profissão de fato, e faz parte da Opus Dei (http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1106776-1653,00.html).
Veja mais detalhes de sua biografia acessando o link: (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u14099.shtml ). Não vou dizer para você colocar no peso de sua balança o fato de o PCC se haver criado e desenvolvido durante os 12 anos de governo do partido deste candidato (seis dos quais sob comando pessoal dele mesmo) porque você pode achar que meu discurso está sendo tendencioso... Mas o PCC é um fato, e você deve mantê-lo em mente pelo menos para analisar o governador que voce pretende eleger.

Agora basta a você responder à pergunta: com qual dos dois eu me identifico mais? Qual dos dois está mais próximo de minha classe-social? Qual deles defende o interesse do rico e qual deles defende o interesse do pobre?

É a gravata versus o macacão.

Fique tranqüila.
Tenho certeza de que até dia 1º, você terá a resposta.

E quanto ao debate de hoje, honestamente, se eu fosse o Lula faria exatamente o que ele fez. Se ausente ele já foi chamado chefe de quadrilha, imagine do que ele não seria chamado se estivesse presente. Ademais, foi bom ele não ter aparecido, afinal as campanhas políticas da oposição foram tão bombardeadas de informação só sobre a "corrupção do governo Lula" que a gente não ficou sabendo de proposta de governo nenhuma... E engraçado que hoje, que eles tiveram chance de falar sobre isso porque o alvo dos ataques não estava presente, eles ainda assim insistiram em só atacar a cadeira vazia... Não é engraçado?

Leia a nota que Lula encaminhou à Rede Globo e julgue por você mesma se a decisão dele não foi mesmo a mais acertada...

Três contra um é covardia!

Escrito por Marcela Godoy às 02h07
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24/09/2006


Eu não pensei que fosse fazer isso em momento algum, mas acho que tenho um dever já que todo o resto está conspirando contra algo em que eu acredito com todo o meu coração: que ninguém deva passar fome. Por isso, adotando uma postura nada partidária, mas totalmente politizada, achei por bem dar minha contribuição (ou não) ao corrente caldeirão de abobrinhas lançado feito merda no ventilador por toda a mídia brasileira.

Em primeiro lugar, gostaria de – sem medo algum – afirmar que dirijo este texto àquela parcela da classe média que se diz politizada e que sequer sabe, de fato, a definição do referido termo (a saber, politizar: fazer alguém, ou a si mesmo, capaz de compreender a importância do pensamento e da ação política; dar ou adquirir consciência dos deveres e direitos do cidadão; segundo o dicionário Houaiss de língua portuguesa).

Estive conversando com algumas pessoas de meu convívio ultimamente sobre os recentes acontecimentos envolvendo o PT nessa história da carochinha que circula por toda a mídia sob o título de “Escândalo do Dossiê”. Desde o começo, quando esta bomba estourou, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: “o que contém o tal dossiê?”. Uma semana depois – vale dizer, depois de vasculhar canais de TV, internet e outros meios atrás de mais informações sobre o crime de nosso querido ex-ministro da saúde José Serra – minha pergunta mudou para: “O que contém este dossiê de tão importante, a ponto de mobilizar a mídia inteira para desviar o foco de sua atenção?”. Não apenas isso, mas esta pergunta acabou me levando a uma outra: “A mídia pensa realmente que a classe média é ignorante a ponto de aceitar uma manobra descarada como essa, cujas finalidades são claramente: 1. garantir pelo menos o governo do estado de São Paulo para o PSDB, já que o governo federal está praticamente com Lula de novo; 2. desviar completamente o foco da atenção – que deveria estar voltada para o conteúdo do dossiê e não para de onde veio o dinheiro para comprá-lo; 3. varrer para debaixo do tapete mais uma falcatrua do PSDB, tal qual foram varridas todas as 60 (veja, eu disse sessenta) CPIs que o referido partido embargou em SP?

Então, a fim de testar minha teoria sobre “quão imbecil a mídia pensa que eu sou?”, resolvi colocar minhas convicções de lado e apenas me perguntar como alguém que tem o mínimo de noção acerca do conceito da palavra ‘estratégia’: por que diabos um candidato que está praticamente reeleito iria aparecer com uma trapalhada dessas a dez dias de vencer as eleições com mais de cinqüenta por cento dos votos populares...

Aí eu resolvi prestar ainda mais atenção a tudo e vi Heloísa Helena (sim, aquela mesma Heloísa Helena que eu vi dando um baile na Fátima Bernardes – e gostei!, aquela mesma Heloísa Helena que aparece abraçada a Plínio de Arruda Sampaio do PC do B, candidato ao governo do estado de SP; aquela mesma HH que disse haver aprendido sobre socialismo na Bíblia) comendo das migalhas da Rede Globo, mamando da teta imunda da rede Globo, aquela mesma Rede Globo que ajudou a ditadura militar a se instaurar no Brasil e que pousa de “santa” exatamente como fez a Igreja Católica durante o Nazismo (e que não apenas pousa de santa até hoje, mas carrega a palavra em seu nome e nas orações que ensina aos seus fiéis).

Meu marido colocou a coisa de um jeito interessante: se a arma que matou o coronel Ubiratan fosse encontrada, (veja: a arma que contém as digitais do assassino de um homem!), e tal arma fosse negociada por quem a encontrou: o que seria mais importante? Saber de quem são as digitais que estão na arma (ou seja, saber a identidade daquele que cometeu crime), ou saber de onde vem o dinheiro que utilizado como pagamento pela prova?

É interessante pensar sobre como a classe média é facilmente manipulada pela mídia; como a classe média tem sua própria ética, ou seja, uma ética que não tem qualquer tipo de semelhança com “ética”, a saber: “parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social”. Isso por uma razão muito simples, por definição, ‘ética’ relaciona-se com ‘investigação’ e a classe-média não investiga, a classe média consome. O que quer que seja, mas principalmente informação. A classe média faz o que o mercado determina. A classe média faz o que a mídia determina. A classe média é tão mercadoria quanto a mercadoria que ela é levada a consumir. É graças à classe média que máximas como "show must go on" são possíveis...

E o mais engraçado é que todos se dizem politizados! Todos se dizem capazes de “compreender a importância do pensamento e da ação política; dar ou adquirir consciência dos deveres e direitos do cidadão” sem produzir questionamentos próprios, somente pensando com o cérebro das emissoras de TV, dos donos de jornais e revistas, dos websites...

Uma coisa é uma verdade histórica, comprovada, e inquestionável: ricos e pobres têm – de fato – consciência de classe. O rico sabe que é rico. O pobre sabe que é pobre.

E a classe média o que tem? A Rede Globo. A ilusão de que é ela que move a roda.

Acho que está na hora da classe média mostrar que é capaz de pensar.
Acho que está na hora da classe média mostrar que pode questionar além de consumir.

Eu não sei quanto a vocês, mas para mim, tentar derrubar um candidato que tem mais de cinqüenta por cento da maioria do voto popular por meio da distorção dos fatos é um insulto à democracia. Aliás, é um insulto à inteligência. Pelo menos à minha... Afinal, será que este candidato não merece pelo menos o questionamento acerca de tudo o que a mídia vem lançando contra ele? Será que existem esqueletos só no armário do PT?

Espero que você, caro leitor, tenha a certeza de que suas convicções políticas são de fato suas.

E antes que fique qualquer dúvida: não, eu não sou petista.
Mas vou votar no Lula. De novo. Como disse no começo, acredito com todo o meu coração que ninguém deve passar fome. É fácil dizer que o bolsa-família é uma esmola, afinal, diz isso quem almoça e janta todos os dias. Ademais, eu jamais votaria num candidato da Opus-Dei, sempre achei a Igreja Católica um antro de diabos que só fizeram acumular malefícios ao longo de toda História em qualquer segmento que se possa conceber. E como se isso não bastasse, votar num candidato de extrema-direita (sim, caro leitor, sei que você está se sentindo traído porque ninguém te contou isso, mas sinto informar que o PSDB não é centro-esquerda como se diz, é extrema direita mesmo – vasculhe um pouco a história do partido, suas alianças, e as pessoas que o fazem e você constatará este fato) seria como votar no Bush, ou como diria Hugo Chaves, no próprio diabo.

E já que estou dizendo tudo, para o estado meu voto é do Mercadante. Se ele fizer pelo pobre paulista o que o Lula fez pelo pobre do quinto dos infernos do Brasil, para mim já está de bom tamanho. Além do mais, não voto na pessoa de um "pseudo-separatista", nem mum partido que não consegue enxergar a relação entre crime e falta de educação. Valha-me Deus, 12 anos de PSDB em São Paulo e o que ganhamos? O PCC...

É a classe-média pagando por sua falta de critério ao votar em candidatos que defendem os interesses de uma classe da qual ela jamais fará parte.

É histórico: rico governa para rico...
E a filha do Alckimim trabalha na Daslu, não nas Casas Bahia.

Mas no final, como eu sou uma Zé-Ninguém, deixo vocês com o depoimento de alguém que é intelectualmente reconhecido... Leiam a entrevista a abaixo. E perguntem-se por que nunca esta intelectual fora convidada para um entrevista no Programa do Jô....

Escrito por Marcela Godoy às 23h08
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Entrevista com Rose Marie Muraro: escritora
MOISÉS MENDES

Reconhecida no Brasil e no Exterior como autora de livros sobre a condição da mulher, Rose Marie Muraro ganhou prestígio como feminista a partir dos anos 70. Formada em economia, circula pela sociologia, antropologia e psicologia para entender o feminino e seu ambiente de opressão e pobreza. Nesta entrevista por telefone, ela defendeu uma tese que admite ser capaz de provocar reações indignadas:

- Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade.

É dita, repetida, soletrada para defender que, apesar das denúncias de corrupção, o governo Lula deve ser anistiado por ter socorrido os pobres. A escritora, 75 anos, entende que setores que cobram moralidade de Lula, do governo e do PT sempre se comportaram imoralmente. A seguir, a entrevista que concedeu por telefone:

Zero Hora - Os intelectuais identificados como de esquerda voltaram a falar depois da crise de corrupção?

Rose Marie Muraro - Eu falei o tempo todo. Nunca estive em silêncio. Outros estiveram, porque houve um desânimo, um pouco de decepção com Lula. Mas vou votar nele de novo. Minha decepção é com a parte econômica. Quero ver o que ele vai fazer no segundo mandato. Estou votando meio de nariz fechado. Mas no Alckmin (Geraldo Alckmin, candidato do PSDB) não voto porque é da extrema direita.

ZH - Sua decepção é só com a área econômica?

Rose Marie - Eu estava esperançada. Achei que Lula sairia do modelo neoliberal, e ele não saiu. Mas reconheço que o Bolsa-Família incrementou a economia do Nordeste, que cresceu 10%. Aprendi com Dom Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife, já falecido) que, ao mesmo tempo em que se dá comida, é preciso se fazer uma reforma estrutural. Mas o pobre diz: Lula faz por mim. Os porteiros da minha rua dizem: pelo menos hoje a gente come. Um deles me contou: pela primeira vez consegui juntar dinheiro para comprar uma passagem e retornei à minha cidade no Nordeste, e ela estava toda iluminada.

ZH - Por isso, segundo as pesquisas, os pobres votam em Lula?

Rose Marie - O pobre sempre foi expropriado desde o nascimento. Lula sabe disso porque fugiu de Garanhuns para não morrer de fome. Uma pesquisa que realizei mostra que, desde que nasce, uma criança filha de camponeses sabe que vai chorar de fome e que seus desejos não serão satisfeitos, que sua fome não será saciada. Que ela sempre espera pela mãe, que já sofria como mulher a opressão do marido, dos pais. Essa criança esperava, na passividade, pela vontade de Deus, do céu, uma salvação. Se ficasse boazinha, como pobre, iria para o céu. Aí tem também a opressão do patrão, do machismo, a dominação, a religiosidade popular.

ZH - O pobre não vincula Lula ao mensalão e agora ao caso do dossiê contra Serra?

Rose Marie - O pobre já vinha sendo roubadíssimo, expropriado. Isso de mensalão e de sanguessuga é da lógica da classe média, não chega ao pobre da forma como os entendemos. A corrupção é uma disfunção do sistema econômico. Temos uma dupla moral. Os pobres serão sempre roubados pelos dominantes, porque os pobres devem ser honestos, e eles, não. Um banqueiro me disse que é assim mesmo, que a corrupção e a fraude são das leis do mercado. A classe rica ri de você. O caso do dossiê é revelador. Nada se investiga sobre o envolvimento de Serra com as sanguessugas, mas tudo se investiga sobre o PT. A mídia está com todo o foco sobre o PT.

ZH - Todos, invariavelmente, agem então de forma antiética?

Rose Marie - Eu digo que ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade. O pobre sempre ouviu que deveria ser honesto, mas foi expropriado. Hoje ele pensa: vou votar em alguém que faz algo por mim, que me dá o que comer. É ético o que o povo está fazendo, ele está defendendo a sua vida. É a lógica da vingança de quem sempre foi expropriado. Seja quem for, se der comida aos pobres, terá meu voto. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, já dizia que, se você está com fome, você tem o direito de roubar. Nenhum presidente antes havia favorecido tanto os pobres, a não ser Getúlio Vargas. Mas depois veio Delfim (Delfim Netto, ministro da Fazenda durante a ditadura) e expropriou a comida dos pobres. Delfim era um ético?

ZH - Isso justifica o mensalão e a corrupção?

Rose Marie - Essa história de mensalão foi criada pelo PFL. O próprio Roberto Jefferson (ex-deputado, do PTB, que denunciou o mensalão) disse que o PT não tinha se locupletado. Os outros governos roubaram indistintamente. Juscelino (Juscelino Kubitschek) fez Brasília com o dinheiro da Previdência. O mensalão é pouco perto dos bilhões das privatizações do governo FH, o governo mais corrupto. Mas Lula é considerado um semi-estadista, e FH é um grande estadista. Sempre achei o mensalão uma coisa ridícula, uma bobagem. Converso com pessoas esclarecidas que se deram conta de que tudo foi uma armação.

ZH - O governo não tinha como agir de outra forma, sem o mensalão?

Rose Marie - Tinha. Eu iria para a TV e diria: tenho tais leis para votar, boas para a população, e o Congresso não quer. Mas como governar se a Câmara tem os partidos dos ruralistas, das empreiteiras, da indústria farmacêutica, dos bancos, das indústrias? O que Lula deveria ter feito era trocar a política econômica que beneficia essa elite. Mas ele acendeu uma vela a Deus e outra ao diabo.

ZH - Pelas suas conclusões, Lula teria sido vítima de uma campanha moralista?

Rose Marie - Todo moralismo é farisaísmo. Está em São Mateus. Os fariseus de hoje são a classe dominante. Falam de moral num sistema que sempre foi imoral. Isso é farisaísmo. E não sou comunista, porque o comunismo tem a mesma lógica. A noção de ética não pode ser aplicada à economia se não vier acompanhada de outros valores. Essa moral foi feita para manter as pessoas pobres. Eu não sou farisaica. Enfrentei a ditadura e luto concretamente contra a injustiça.

( moises.mendes@zerohora.com.br )

Escrito por Marcela Godoy às 23h07
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