OS CÃES DO INFERNO


02/10/2006


Corrijam-me se eu estiver enganada...

Mas os eleitores de Cristovam Buarque e Heloísa Helena devem estar, no mínimo, confusos.

Hoje, em entrevista ao site da UOL, o candidato derrotado afirmou: "No 1º turno, a gente escolhe o que é mais próximo a nós; no 2º turno, o que é menos distante", fazendo uma alusão ao fato de ainda não haver decidido a quem prestará apoio no 2o. turno.

Agora eu me pergunto: o candidato da revolução educacional já não deveria ter definida sua posição ideológica, uma vez que a direita é conhecidamente a patrocinadora do "emburrecer para governar"? Essa dúvida é mesmo legítima, ou nunca houve, de fato, uma profunda preocupação com a mudança do modelo educacional brasileiro. Pior, será que quando se refere às vantagens das alianças, os projetos de transformação devem ser engavetados?

Da mesma maneira, o eleitor de Heloísa Helena deve estar se sentindo abandonado. A grande reformadora perdeu, e agora largou a batata quente na mão de seu eleitorado. Disse ela: "Meu eleitor é livre para decidir em quem votar. Não vou apoiar ninguém". Muito pretensioso da parte de HH se abster num momento tão decisivo. Uma coisa é certa: se ela afirma tão veementemente ser uma pessoa “que tem amor no coração”, devia ter a humildade de reconhecer que sua derrota não significa uma derrota do povo; principalmente porque o pobre que vota em HH é tão pobre quanto aquele que vota em Lula. E é o pobre que está desesperadamente tentando reeleger Lula, não o rico, nem a classe-média! Então o pobre do Lula não merece de HH o mesmo discurso?

No final, parece que ninguém joga no time de ninguém.
Os interesses são sempre unilaterais.
Pessoais.

É de se pensar.

Escrito por Marcela Godoy às 19h21
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Afinal, de que lado nós estamos?

 

As urnas não mentem: a maioria do eleitorado paulista declaradamente não leva em consideração a questão ética na hora de votar. Mais do que isso, o paulista (em especial o paulistano) tem bastante definido de que lado está ao se posicionar do ponto de vista ideológico e socioeconômico: é direita, e é elitista. Três candidatos eleitos com maioria absoluta são suficientes para provar a teoria, a saber:

 

José Serra, cujo nome aparece envolvido na máfia das sanguessugas ao lado de outros políticos do PSDB, foi eleito com o maior número de votos da história do estado num primeiro turno. Paulo Maluf (conhecido como o “Rouba, mas faz”) foi eleito com 739.827 votos; tendo sido o deputado federal mais votado do estado. Clodovil, declaradamente uma figura racista, hitlerista, elitista, que se candidatou a um cargo público em virtude de sua decadência como celebridade e falência financeira, consegue se eleger em terceiro lugar em SP, com nada menos do que 493.951 votos.

 

Os dados são assustadores para aqueles eleitores que tentam orientar seu voto por vias ideológicas ou, pelo menos, sócio-econômicas. Não acredito que haja em São Paulo maioria rica ou de classe-média alta. Acho que do ponto de vista da distribuição de renda, o estado mais rico da federação está mais para Porto Príncipe (capital do Haiti) do que para Berna (capital da Suíça). Curiosamente, entretanto, o paulista vota como se fosse um cidadão suíço.

 

Isso é um grave indicador do despreparo político do eleitor de São Paulo; afinal, os paulistas se consideram cidadãos informados, procuram buscar a social-democracia, mas parecem não enxergar (ou compreender) que a direita elitista que eles elegem e re-elegem não tem nada de social-democrata. Pior, é uma direita que se esconde atrás de um nome fantasia, de uma grande propaganda enganosa.

 

Eu dou o braço a torcer e admito que o governo Lula traiu seus companheiros esquerdistas ao manter o mesmo modelo do governo anterior, mas creio que neste sentido ele mereça mais um voto de confiança pelo menos por ter buscado a social-democracia. A meu ver, o governo Lula foi o que o PSDB se propôs a ser ideologicamente e não foi: uma social democracia. O PSDB, contudo, jamais foi social-democrata ou centro-esquerda, o nome aí é só uma alegoria mentirosa. Afinal, estamos falando de um modelo de governo que privilegiou as privatizações, a injeção desmedida do capital estrangeiro, a diminuição dos investimentos públicos nas áreas sociais. Mais do que isso, um modelo que se choca frontalmente com o processo de integração latino-americano e que criminaliza os movimentos sociais.

 

Ademais, sejamos honestos, a transformação do sistema (tão almejada pela esquerda que sempre apoiou Lula e da qual ele faz parte) jamais poderia se dar neste governo simplesmente porque o povo não tem formação intelectual suficiente para compreender de fato o que defende a ideologia de esquerda ou de direita. Qualquer tentativa do Lula de forçar uma transformação neste sentido seria vista como uma tentativa de golpe, já que - para o povo politicamente despreparado - palavras como comunismo e socialismo são sempre associadas com ditadura e totalitarismo. O discurso de Heloísa Helena podia ser belíssimo e comovente, mas se ela houvesse mesmo chegado ao poder será que teria coragem de levar a cabo a transformação que tanto prometia? Eu não me lembro de tê-la visto falar em sua entrevista na Rede Globo que o modelo capitalista neo-liberal de hoje seria derrubado em favor do modelo socialista que ela defende. E me pergunto a razão pela qual ela nunca tenha dito abertamente que todas as suas propostas de governo só seriam de fato concretizadas a partir da mudança deste modelo. Será que ela também não seria obrigada a trair a esquerda neste sentido? Aliás, será que não traiu ao esconder de seu discurso - de maneira aberta e clara - este fato? Não me lembro de tê-la ouvido falar claramente as palvras: "Se eleita vou instaurar o socialismo no Brasil!". Ela sabe que não poderia fazer isso. Neste sentido, seu discurso ficou vazio. Para mim, pelo menos, decepcionante.

 

A coisa boa, contudo, foi que Lula iniciou com seu governo a retomada do processo de politização do povo brasileiro e este foi um duro golpe na direita. Mas o povo, infelizmente, ainda é imaturo até mesmo para enxergar este fato.

 

Mas limitemos nossa discussão à proposta empurrada pela direita: o voto ético.

 

Foi muito confuso compreender a razão pela qual tantos amigos e parentes deram seu voto a Paulo Maluf e negaram seu voto a Lula. Afinal, se a ética é a bola da vez, como explicar esta escolha? Chega a dar para ver a cara dos donos dos veículos de imprensa rindo do eleitor paulista.

  

Mas quem foi que disse que a luta seria fácil? 

 

(Bibi, este é para você)

Escrito por Marcela Godoy às 14h59
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